Capítulo 4 – Portas e óculos deslizantes
Horn não chegou a ver o impacto do jipe contra o portão de entrada do galpão que em teoria seria uma base secreta do governo americano. Sim, tudo não passava de uma teoria ainda para Hornildo. Afinal, desde quando ter vários homens fortemente armados disparando contra ti enquanto você tenta invadir sua morada eh sinal de que eles são militares protegendo os mais vis segredos do governo? Bobagens! Precisaria ver mais do que isso para ser convencido de que o que aquele velho tucano lhe dizia era verdade.
O problema era que não poderia ver muito com a cabeça agachada e o braço sobre seus olhos. Seu medo dos possíveis estilhaços que a desembestada entrada dele e de seus dois companheiros hippies com o jipe militar recém-roubado produziria, foi mais forte que a vontade de ver o mais rápido possível o conteúdo daquele superprotegido santuário. Ouviu o ruído surdo da carroceria do veículo se comprimindo ligeiramente enquanto abria caminho entre o metal enfraquecido pelas explosões. Esperou ouvir novamente os disparos dos militares, desta vez ecoando na estrutura metálica.
Mas não ouviu nada. Nada além do vento batendo em suas orelhas. O jipe não havia parado, ao menos.
Olhou finalmente por cima do braço e deparou-se com algo inesperado: estava dentro de um túnel, um corredor amplo o suficiente como para ser percorrido por dois jipes daqueles lado a lado. Era muito bem iluminado, as paredes e o teto possuíam um ar futurista que deu a Hornildo a sensação de ter entrado numa historia em quadrinhos.
-Você está bem, guri? – Perguntou Marc. Sua voz mostrava que a sua euforia não havia acabado ainda.
-Você eh que não está bem! Da cabeça! E se o portão tivesse resistido? – replicou ele. Sua euforia sim tinha ido embora depois daquele susto.
-Bah, tu tem que aprender a confiar em minha intuição.
-Sim, claro… – Disse o coiote enquanto entrava de qualquer jeito no banco traseiro do jipe, sentando-se ao lado de Ió. – O que tua intuição me te diz sobre isto? – E apontou para o corredor que atravessavam a uns cento e quarenta por hora e parecia não ter fim. Continuava levando-os reto, descendo pouco a pouco. – Isto era pra ser o interior destroçado de um galpão, não uma maldita nave espacial!
-Minha intuição diz que o que vamos ver por aqui vai ser uma brasa, guri! – Disse, girando o pescoço para ver melhor o banco de trás. – Então te segura bem aí…
-CUIDADO! – Gritou Ió, apontando pra frente, levantando-se do banco.
Marc, alarmado, voltou sua atenção para o volante e pisou no freio assim que viu as grossas barras metálicas emergindo de repente do solo, impedindo a passagem. Mas foi tarde demais, mesmo diminuindo um pouco a velocidade, o jipe bateu em cheio contra uma das barras. A traseira do jipe foi impulsionada para cima, fazendo-o dar um lento giro de 180 graus no ar, caindo de cabeça para baixo no chão.
Horn não sabia como conseguira fazer Ió sentar-se a tempo e agarrar-se de qualquer jeito na carroceria do jipe para não serem cuspidos fora pelo impacto. Puro reflexo, talvez. Ainda assim, sentir-se preso embaixo da tonelada que devia pesar aquele monstro de metal era agonizante. O coiote podia sentir algo úmido e quente escorrer por seu rosto, mas não lhe deu atenção. Precisava arrastar Ió para fora dali. Tateou em busca do braço da loba, mas não encontrou nada. Desesperou-se. Olhou para o lado e viu que já não havia ninguém do seu lado.
Foi quando sentiu como algo agarrava sua calda e o puxava para fora daquela prisão por um apertado vão proporcionado pela carroceria do jipe. Soltou um berro de desespero pelo susto, tentando se agarrar nos bancos, mas relaxou ao ouvir a voz de Ió atrás de si:
-Não é hora de ficar se escondendo, Hornildo! Sai logo daí! – Gritava ela enquanto, provavelmente, puxava de sua calda.
-Isso dói, sua maluca! – Gritou ele como resposta, soltando-se e permitindo ser arrastado novamente para a o mundo da luz. Lá estavam Ió e Marc, já em pé e com alguns ferimentos leves. – E tu não aprende mesmo, hein? Não me chame de… – Disse ele enquanto se levantava, espanando com as patas a sujeira de sua roupa, mas foi interrompido por Marc.
-Guri, melhor tu ficar quieto. –Disse ele, olhando para frente. – Temos companhia.
E tinham mesmo. Como se por arte de mágica, uma das placas metálicas que formam as paredes daquele imenso e interminável corredor deslizou para cima a modo de porta futurística e de lá saíram pessoas. Várias pessoas trajando jalecos brancos com detalhes em vermelho e um brilhante crachá no peito. Para Horn pareciam médicos, só que ao invés de um estetoscópio, empunhavam pistolas, devidamente apontadas para suas cabeças.
Eram seis no total e, com toda a calma do mundo, rodearam aos invasores, fazendo-os prensarem suas costas contra o jipe capotado. Foi uma raposa cuja pelagem se confundia com o jaleco branco quem falou primeiro.
-Ora, ora, quem diria! No final das contas os invasores não passam de uns pivetes. Como pode ser isso? – Comentou a raposa albina. Sua voz era rouca, possível resultado de anos ao lado do tabaco. – Vou arriscar perguntar: quem mandou vocês aqui?
O coração de Horn estava a mil. Se esforçava para fazer suas mãos levantadas pararem de tremer. “E agora? E agora? E agora?”. Olhou para seus companheiros de missão suicida e o desespero foi lentamente sendo substituído pela raiva. Afinal, como aqueles dois podiam transparecer tanta calma num momento como aquele? “Estamos mortos… Mortos!”
-Ah, ninguém, viemos pra ver o que tem aqui de tão secreto. – Quem respondeu foi Ió, como se fosse uma garotinha explicando o motivo de ter feito algo inocentemente travesso. – A senhora poderia nos mostrar? Por fa…
A resposta da mulher foi um disparo. O projétil chegou a roçar a pelagem de Ió, provocando um pouco profundo corte em sua bochecha. A loba levou ambas as patas até o corte, gemendo.
-Sem brincadeiras, por favor. E levantem as mãos vocês dois, sigam o exemplo do teu amigo. – E apontou para Horn com a pistola. O coiote engoliu em seco. – Vou perguntar mais uma vez: quem os enviou?
-Como você é mal-educada! Eu já disse que…
-Somos de uma organização russa secreta! – Gritou Horn, interrompendo a loba maluca, evitando qualquer tragédia. – Viemos para recolher toda a informação possível para a pátria-mãe… – Continuou ele, gaguejando em alguns pontos, sua mente trabalhando a mil para inventar o que mais falar. Ió e Marc o olhavam como se fosse a pessoa mais maluca do mundo. – Mas estamos dispostos a ceder-lhes informações importantíssimas em troca da liberdade… Por favor, leve-nos até algum representante da CIA capacitado para que possamos conversar.
O pânico já havia se apoderado de Horn, naturalmente. Nunca que numa situação normal ele inventaria tamanha baboseira. Precisava ganhar um pouco de tempo, e que jeito melhor de fazer isso que se fazendo passar por uma valiosa fonte de informações? As milhares de historias em quadrinhos que Horn costumava ler finalmente estavam servindo de algo.
-Acho difícil acreditar que um moleque de (quantos anos você tem? 18?) possa ser um espião russo enviado a uma missão suicida dentro do território americano. – Começou ela, ajeitando os pequeninos óculos com a garra do indicador. – Mas com o show pirotécnico que vocês apresentaram lá fora, vocês ganharam o beneficio da duvida.
-Então, vocês nos levarão até um…
-EU sou a responsável por tudo o que acontece nesta base, nem CIA, nem FBI, nem o próprio presidente tem autoridade para meter o dedo no que eu disser. Então acho que você poderá dizer tudo para mim. – A língua daquela mulher era a coisa mais afiada que Horn já vira. Suas palavras conseguiam atingir=lhe os nervos com maestria. Ou pelo menos essa era a sensação que o coiote, a flor da pele, tinha. – Mas é melhor não ficarmos aqui, o tanque deve estar prestes a passar.
-Bah, um tanque? Desses tri grandes? – Perguntou Marc, alarmado. Foi perfurado pelo olhar da mulher, aparentemente desgostosa por ser tratada com tanto descaso por um espião pé-rapado como aquele hippie.
-Provavelmente não do tipo que você esteja acostumado a ver, mas sim. Vocês simplesmente nos pegaram com a guarda baixa, normalmente nossas defesas não se limitam a um par de guardas noturnos. – Limitou-se a dizer ela, enquanto fazia uns quantos sinais para seus companheiros de jaleco. – Vamos até minha sala, lá poderei oferecer-lhes algo para beber.
Guiados por indicações de pistola e olhares intimidantes, os três se dirigiram até a porta por onde a raposa e sua trupe haviam saído. Antes de entrarem, um deles deu um sinal para o que Horn pensou ser uma câmera no teto e as barras que se encarregaram de destruir o jipe voltaram a camuflar-se embaixo da pista. Isto aqui deve ter câmeras vigiando cada metro quadrado”, pensou ele.
Entraram num corredor estreito, porém ainda melhor iluminado que o anterior. Antes da porta se fechar a suas costas, puderam ouvir um estrondoso som, como o de turbinas de avião acionadas. Vinha aproximando-se rapidamente, vindo do lado oposto ao que vieram. Horn virou a cabeça rapidamente para ver o que era aquilo, mas a porta já havia sido fechada. Apenas pode ouvir o som abafado de metal chocando contra metal antes dos som diminuir até sumir.
-Não faça essa cara assustada. – Comentou uma águia, dedicando-lhe um sorriso maroto. – Você já deve ter uma bela noção do que temos por aqui. Isso foi só nosso tanque.
-Hopkins, mais uma palavra e mandarei depenarem essa tua cabeça oca. – Ameaçou a chefe, sem dar-se o trabalho nem de girar-se. Continuava caminhando, a frente do grupo.
-O… O que vai acontecer com os outros… Senhora…?
-Thompson. Carmem Thompson. E é lógico que serão todos eliminados já. Não temos por que manter prisioneiros.
-Não! – Protestou Horn, a imagem de seus irmãos invadindo automaticamente sua mente. – Deixe-os ir! Senão… Senão juro por Deus que não haverá troca de informações alguma! – Ameaçou ele, sem demonstrar confiança alguma em suas palavras.
-Tolo. Ninguém mencionou nada de uma “troca”. Você vai me dar essas informações queira ou não. Fique feliz por você e seus dois amigos ainda estarem vivos. – Mais que nunca, suas palavras golpearam com força as colunas dos nervos de Horn. E desta vez, conseguiu provocar um belo desmoronamento em seu interior. Faltou-lhe ar, pensou em algo para dizer, continuar suplicando, mas tudo lhe pareceu inútil. As costas daquela mulher, bem mais baixa que ele, pareceram enormes de repente.
“Isto é uma loucura…” a momentânea excitação que ganhara antes fora daquela base, disparando contra os tais “guardas noturnos” acabava de desaparecer por completo, esmagada pela agonia que tomava conta de sua mente. “O que eu faço agora?” A cada passo que davam naquele corredor, sentia como se estivesse se aproximando do ultimo que daria em sua vida.
-Calma aí, Hornildo. – Consolou-o Ió, despertando-o de certo transe. Não é preciso dizer que sua voz não havia perdido a infantil serenidade de sempre. Seu corte no rosto parara de sangrar. – Eles sabem se cuidar. Tenha um pouco de fé desta vez.
-Fé? Pfff… – Zombou o tal Hopkins. – Contra aquele brinquedinho, nem Deus vai conseguir salvá-los.
-Tu parece ser um cara bem descrente também, hein, piá? Ninguém precisa de um Deus para ter fé. A fé é mais poderosa que isso… – Replicou Marc, como se recitasse a letra de uma canção.
-Senhorita Thompson, se estes caras são espiões, eu sou um peão de obra. Recomendo seriamente executá-los de uma vez.
-Ah, talvez você vire um peão de obra, Hopkins, se não calar essa boca. Me encarregarei pessoalmente disso. Agora limite-se a fazer teu trabalho que eu farei o meu. Ah, parece que finalmente chegamos. – disse, ao tempo que puderam ver o final do túnel.
Chegaram a uma câmara imensa, de vários andares de profundidade. Encontravam-se no mais elevado, o que lhes permitia ter uma visão privilegiada da espetacular construção subterrânea: os limites da câmara, retangular em seu todo, era cravejado por plataformas em espiral sobre as quais centenas de pessoas caminhavam, entrando e saindo de portas deslizantes como as de antes, todas usando um jaleco branco. Mas o que roubou a atenção dos três foi o que havia no centro, ocupando os vários quilômetros quadrados daquela gigantesca câmara: uma inconfundível nave espacial alienígena, com suas pulsantes e florescentes conexões, turbinas e canhões externos gigantescos.
-Bem vindos à Área 51, senhores. – Murmurou a raposa albina, ajeitando pela milésima vez os óculos em seu focinho.
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Horn não chegou a ver o impacto do jipe contra o portão de entrada do galpão que em teoria seria uma base secreta do governo americano. Sim, tudo não passava de uma teoria ainda para Hornildo. Afinal, desde quando ter vários homens fortemente armados disparando contra ti enquanto você tenta invadir sua morada eh sinal de que eles são militares protegendo os mais vis segredos do governo? Bobagens! Precisaria ver mais do que isso para ser convencido de que o que aquele velho tucano lhe dizia era verdade.
O problema era que não poderia ver muito com a cabeça agachada e o braço sobre seus olhos. Seu medo dos possíveis estilhaços que a desembestada entrada dele e de seus dois companheiros hippies com o jipe militar recém-roubado produziria, foi mais forte que a vontade de ver o mais rápido possível o conteúdo daquele superprotegido santuário. Ouviu o ruído surdo da carroceria do veículo se comprimindo ligeiramente enquanto abria caminho entre o metal enfraquecido pelas explosões. Esperou ouvir novamente os disparos dos militares, desta vez ecoando na estrutura metálica.
Mas não ouviu nada. Nada além do vento batendo em suas orelhas. O jipe não havia parado, ao menos.
Olhou finalmente por cima do braço e deparou-se com algo inesperado: estava dentro de um túnel, um corredor amplo o suficiente como para ser percorrido por dois jipes daqueles lado a lado. Era muito bem iluminado, as paredes e o teto possuíam um ar futurista que deu a Hornildo a sensação de ter entrado numa historia em quadrinhos.
-Você está bem, guri? – Perguntou Marc. Sua voz mostrava que a sua euforia não havia acabado ainda.
-Você eh que não está bem! Da cabeça! E se o portão tivesse resistido? – replicou ele. Sua euforia sim tinha ido embora depois daquele susto.
-Bah, tu tem que aprender a confiar em minha intuição.
-Sim, claro… – Disse o coiote enquanto entrava de qualquer jeito no banco traseiro do jipe, sentando-se ao lado de Ió. – O que tua intuição me te diz sobre isto? – E apontou para o corredor que atravessavam a uns cento e quarenta por hora e parecia não ter fim. Continuava levando-os reto, descendo pouco a pouco. – Isto era pra ser o interior destroçado de um galpão, não uma maldita nave espacial!
-Minha intuição diz que o que vamos ver por aqui vai ser uma brasa, guri! – Disse, girando o pescoço para ver melhor o banco de trás. – Então te segura bem aí…
-CUIDADO! – Gritou Ió, apontando pra frente, levantando-se do banco.
Marc, alarmado, voltou sua atenção para o volante e pisou no freio assim que viu as grossas barras metálicas emergindo de repente do solo, impedindo a passagem. Mas foi tarde demais, mesmo diminuindo um pouco a velocidade, o jipe bateu em cheio contra uma das barras. A traseira do jipe foi impulsionada para cima, fazendo-o dar um lento giro de 180 graus no ar, caindo de cabeça para baixo no chão.
Horn não sabia como conseguira fazer Ió sentar-se a tempo e agarrar-se de qualquer jeito na carroceria do jipe para não serem cuspidos fora pelo impacto. Puro reflexo, talvez. Ainda assim, sentir-se preso embaixo da tonelada que devia pesar aquele monstro de metal era agonizante. O coiote podia sentir algo úmido e quente escorrer por seu rosto, mas não lhe deu atenção. Precisava arrastar Ió para fora dali. Tateou em busca do braço da loba, mas não encontrou nada. Desesperou-se. Olhou para o lado e viu que já não havia ninguém do seu lado.
Foi quando sentiu como algo agarrava sua calda e o puxava para fora daquela prisão por um apertado vão proporcionado pela carroceria do jipe. Soltou um berro de desespero pelo susto, tentando se agarrar nos bancos, mas relaxou ao ouvir a voz de Ió atrás de si:
-Não é hora de ficar se escondendo, Hornildo! Sai logo daí! – Gritava ela enquanto, provavelmente, puxava de sua calda.
-Isso dói, sua maluca! – Gritou ele como resposta, soltando-se e permitindo ser arrastado novamente para a o mundo da luz. Lá estavam Ió e Marc, já em pé e com alguns ferimentos leves. – E tu não aprende mesmo, hein? Não me chame de… – Disse ele enquanto se levantava, espanando com as patas a sujeira de sua roupa, mas foi interrompido por Marc.
-Guri, melhor tu ficar quieto. –Disse ele, olhando para frente. – Temos companhia.
E tinham mesmo. Como se por arte de mágica, uma das placas metálicas que formam as paredes daquele imenso e interminável corredor deslizou para cima a modo de porta futurística e de lá saíram pessoas. Várias pessoas trajando jalecos brancos com detalhes em vermelho e um brilhante crachá no peito. Para Horn pareciam médicos, só que ao invés de um estetoscópio, empunhavam pistolas, devidamente apontadas para suas cabeças.
Eram seis no total e, com toda a calma do mundo, rodearam aos invasores, fazendo-os prensarem suas costas contra o jipe capotado. Foi uma raposa cuja pelagem se confundia com o jaleco branco quem falou primeiro.
-Ora, ora, quem diria! No final das contas os invasores não passam de uns pivetes. Como pode ser isso? – Comentou a raposa albina. Sua voz era rouca, possível resultado de anos ao lado do tabaco. – Vou arriscar perguntar: quem mandou vocês aqui?
O coração de Horn estava a mil. Se esforçava para fazer suas mãos levantadas pararem de tremer. “E agora? E agora? E agora?”. Olhou para seus companheiros de missão suicida e o desespero foi lentamente sendo substituído pela raiva. Afinal, como aqueles dois podiam transparecer tanta calma num momento como aquele? “Estamos mortos… Mortos!”
-Ah, ninguém, viemos pra ver o que tem aqui de tão secreto. – Quem respondeu foi Ió, como se fosse uma garotinha explicando o motivo de ter feito algo inocentemente travesso. – A senhora poderia nos mostrar? Por fa…
A resposta da mulher foi um disparo. O projétil chegou a roçar a pelagem de Ió, provocando um pouco profundo corte em sua bochecha. A loba levou ambas as patas até o corte, gemendo.
-Sem brincadeiras, por favor. E levantem as mãos vocês dois, sigam o exemplo do teu amigo. – E apontou para Horn com a pistola. O coiote engoliu em seco. – Vou perguntar mais uma vez: quem os enviou?
-Como você é mal-educada! Eu já disse que…
-Somos de uma organização russa secreta! – Gritou Horn, interrompendo a loba maluca, evitando qualquer tragédia. – Viemos para recolher toda a informação possível para a pátria-mãe… – Continuou ele, gaguejando em alguns pontos, sua mente trabalhando a mil para inventar o que mais falar. Ió e Marc o olhavam como se fosse a pessoa mais maluca do mundo. – Mas estamos dispostos a ceder-lhes informações importantíssimas em troca da liberdade… Por favor, leve-nos até algum representante da CIA capacitado para que possamos conversar.
O pânico já havia se apoderado de Horn, naturalmente. Nunca que numa situação normal ele inventaria tamanha baboseira. Precisava ganhar um pouco de tempo, e que jeito melhor de fazer isso que se fazendo passar por uma valiosa fonte de informações? As milhares de historias em quadrinhos que Horn costumava ler finalmente estavam servindo de algo.
-Acho difícil acreditar que um moleque de (quantos anos você tem? 18?) possa ser um espião russo enviado a uma missão suicida dentro do território americano. – Começou ela, ajeitando os pequeninos óculos com a garra do indicador. – Mas com o show pirotécnico que vocês apresentaram lá fora, vocês ganharam o beneficio da duvida.
-Então, vocês nos levarão até um…
-EU sou a responsável por tudo o que acontece nesta base, nem CIA, nem FBI, nem o próprio presidente tem autoridade para meter o dedo no que eu disser. Então acho que você poderá dizer tudo para mim. – A língua daquela mulher era a coisa mais afiada que Horn já vira. Suas palavras conseguiam atingir=lhe os nervos com maestria. Ou pelo menos essa era a sensação que o coiote, a flor da pele, tinha. – Mas é melhor não ficarmos aqui, o tanque deve estar prestes a passar.
-Bah, um tanque? Desses tri grandes? – Perguntou Marc, alarmado. Foi perfurado pelo olhar da mulher, aparentemente desgostosa por ser tratada com tanto descaso por um espião pé-rapado como aquele hippie.
-Provavelmente não do tipo que você esteja acostumado a ver, mas sim. Vocês simplesmente nos pegaram com a guarda baixa, normalmente nossas defesas não se limitam a um par de guardas noturnos. – Limitou-se a dizer ela, enquanto fazia uns quantos sinais para seus companheiros de jaleco. – Vamos até minha sala, lá poderei oferecer-lhes algo para beber.
Guiados por indicações de pistola e olhares intimidantes, os três se dirigiram até a porta por onde a raposa e sua trupe haviam saído. Antes de entrarem, um deles deu um sinal para o que Horn pensou ser uma câmera no teto e as barras que se encarregaram de destruir o jipe voltaram a camuflar-se embaixo da pista. Isto aqui deve ter câmeras vigiando cada metro quadrado”, pensou ele.
Entraram num corredor estreito, porém ainda melhor iluminado que o anterior. Antes da porta se fechar a suas costas, puderam ouvir um estrondoso som, como o de turbinas de avião acionadas. Vinha aproximando-se rapidamente, vindo do lado oposto ao que vieram. Horn virou a cabeça rapidamente para ver o que era aquilo, mas a porta já havia sido fechada. Apenas pode ouvir o som abafado de metal chocando contra metal antes dos som diminuir até sumir.
-Não faça essa cara assustada. – Comentou uma águia, dedicando-lhe um sorriso maroto. – Você já deve ter uma bela noção do que temos por aqui. Isso foi só nosso tanque.
-Hopkins, mais uma palavra e mandarei depenarem essa tua cabeça oca. – Ameaçou a chefe, sem dar-se o trabalho nem de girar-se. Continuava caminhando, a frente do grupo.
-O… O que vai acontecer com os outros… Senhora…?
-Thompson. Carmem Thompson. E é lógico que serão todos eliminados já. Não temos por que manter prisioneiros.
-Não! – Protestou Horn, a imagem de seus irmãos invadindo automaticamente sua mente. – Deixe-os ir! Senão… Senão juro por Deus que não haverá troca de informações alguma! – Ameaçou ele, sem demonstrar confiança alguma em suas palavras.
-Tolo. Ninguém mencionou nada de uma “troca”. Você vai me dar essas informações queira ou não. Fique feliz por você e seus dois amigos ainda estarem vivos. – Mais que nunca, suas palavras golpearam com força as colunas dos nervos de Horn. E desta vez, conseguiu provocar um belo desmoronamento em seu interior. Faltou-lhe ar, pensou em algo para dizer, continuar suplicando, mas tudo lhe pareceu inútil. As costas daquela mulher, bem mais baixa que ele, pareceram enormes de repente.
“Isto é uma loucura…” a momentânea excitação que ganhara antes fora daquela base, disparando contra os tais “guardas noturnos” acabava de desaparecer por completo, esmagada pela agonia que tomava conta de sua mente. “O que eu faço agora?” A cada passo que davam naquele corredor, sentia como se estivesse se aproximando do ultimo que daria em sua vida.
-Calma aí, Hornildo. – Consolou-o Ió, despertando-o de certo transe. Não é preciso dizer que sua voz não havia perdido a infantil serenidade de sempre. Seu corte no rosto parara de sangrar. – Eles sabem se cuidar. Tenha um pouco de fé desta vez.
-Fé? Pfff… – Zombou o tal Hopkins. – Contra aquele brinquedinho, nem Deus vai conseguir salvá-los.
-Tu parece ser um cara bem descrente também, hein, piá? Ninguém precisa de um Deus para ter fé. A fé é mais poderosa que isso… – Replicou Marc, como se recitasse a letra de uma canção.
-Senhorita Thompson, se estes caras são espiões, eu sou um peão de obra. Recomendo seriamente executá-los de uma vez.
-Ah, talvez você vire um peão de obra, Hopkins, se não calar essa boca. Me encarregarei pessoalmente disso. Agora limite-se a fazer teu trabalho que eu farei o meu. Ah, parece que finalmente chegamos. – disse, ao tempo que puderam ver o final do túnel.
Chegaram a uma câmara imensa, de vários andares de profundidade. Encontravam-se no mais elevado, o que lhes permitia ter uma visão privilegiada da espetacular construção subterrânea: os limites da câmara, retangular em seu todo, era cravejado por plataformas em espiral sobre as quais centenas de pessoas caminhavam, entrando e saindo de portas deslizantes como as de antes, todas usando um jaleco branco. Mas o que roubou a atenção dos três foi o que havia no centro, ocupando os vários quilômetros quadrados daquela gigantesca câmara: uma inconfundível nave espacial alienígena, com suas pulsantes e florescentes conexões, turbinas e canhões externos gigantescos.
-Bem vindos à Área 51, senhores. – Murmurou a raposa albina, ajeitando pela milésima vez os óculos em seu focinho.
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