Capítulo 1: http://www.furaffinity.net/view/2905994/
Capítulo 2: http://www.furaffinity.net/view/4190568
Neste capítulo, um pouco menos de blá blá blá. Senti que haveria espaço na história para um pouco de ação absurda, portanto, aqui está ela:
Capítulo 3 – Trocando Olhares com o Luar
Começara a bater uma brisa gostosa naquela noite banhada pela luz espectral da lua cheia, uma brisa que o coiote Hornildo até degustaria com os olhos fechados se não estivesse no momento mais tenso de sua vida, apertando contra si uma pistola que havia sobrado no caixote de armamentos. Ele engolia sem eco a cada três passos que dava, misturado em meio aquele pequeno grupo de uns quinze hippies, confiantes e bem armados, que se dirigiam à entrada do terreno daquele velho galpão que em teoria era uma base secreta do exército.
“Talvez isso tudo seja só maluquice desses caras. Talvez isto esteja mesmo abandonado.” Pensava o coiote, tentando controlar seus nervos enquanto arrastava suas patas pelo solo árido. O terreno não era fechado por um portão, simplesmente havia uma trégua de arame farpado grande o suficiente para se passar um caminhão. Os três veículos e únicos objetos que ocupavam o lugar além do galpão se quedaram imutáveis ali, como se observando, indiferentes, a aproximação dos intrusos. Estavam quase entrando. Quando o primeiro da fila pisou do outro lado da linha imaginária que separava o tal santuário militar do resto do mundo, Horn fechou os olhos, esperando o primeiro tiro. Esperou um, dez, vinte segundos, mas nada aconteceu. Viu que estava sendo deixado para trás.
-Pessoal, vamos embora! Não tem ninguém aqui, senão alguém já teria caído morto… – Começou a murmurar ele, correndo para tentar alcançar o grupo. Mas um som metálico mais a frente lhe interrompeu. Todos pararam e, dois segundos de um matador silêncio depois, um feixe de uma ofuscante luz artificial caiu sobre eles. Alguém, lá do galpão, acabava de ligar um holofote contra seus olhos.
-Escondam-se! – Gritou o raposo que liderava a fila, e num piscar de olhos, todos os hippies se espalharam pelo campo baldio, para buscar abrigo atrás dos jipes e do caminhão. Todos menos Horn, é claro.
-Vocês estão loucos? O plano é distraí-los, não pedir de cara que atirem na gente! EI!! – Gritou ele, acenando com ambas mãos, agitando a pistola em direção do feixe de luz, sem conseguir ver quase nada. – NÃO ATIREM!! POR QUE NÃO DESCEM AQUI PRA GENTE CONVER…?!
-HORNILDO!!
Mais uma vez ele não pôde completar sua frase. Antes de que uma arma fosse disparada desde algum lugar dentro do galpão em direção de Horn, Ió saltou de seu esconderijo e o atropelou, ambos capotando pelo chão, evitando o disparo. A garota se levantou imediatamente e puxou o braço do chocado coiote.
-Levanta, Hornildo, levanta!!
-Quer parar de gritar meu nome desse jeito, sua maluca? – Contestou ele, furioso, levantando-se e correndo para trás de um dos jipes com Ió, quase ao mesmo tempo que uma rajadas de projéteis atingia o chão, bem onde estavam. A rajada os acompanhou por um fio até chocar contra a blindagem do jipe. Horn encostou-se contra uma roda e fechou a cara, ofegante. – Por que já estão atirando na gente? Eles são o exército, saco, não terroristas!
-Talvez eles não sejam, guri, mas nós meio que somos. – Respondeu um gato negro de bandana multicolorida ao seu lado, soltando uma risadinha. – Essa é a prova de que seja lá o que eles estiverem fazendo aí dentro, é importante demais como para deixar qualquer um descobrir. – Enquanto dizia isso, Horn pôde ouvir os primeiros disparos dos hippies contra a base militar. – Se tu estiveres tão curioso quanto eu pra ver qual é a de tanta proteção, começa a atirar, guri. – Dito isso, empunhou firmemente seu fuzil e, deixando sua testa aparecer ligeiramente sobre o capô do jipe, começou a atirar.
De onde esses caras tiram toda essa coragem insana? Eles tomaram alguma droga nova? Algum soro do super soldado? Porque não é possível que um bando de hippies maconheiros que até ontem se limitavam a fazer rodinhas de Rock N’ Roll paz e amor assim, de repente, estivessem enfrentando o exército dos Estados Unidos da América para invadir uma base que escondia algo que nem eles sabiam o que era!
“Loucura”, pensou Horn, suas mãos suadas tremendo, empunhando a pistola. “Isto é uma baita loucura, não pode estar acontecendo…” o som dos disparos era ensurdecedor, Horn podia sentir em suas costas o impacto das balas dos militares contra o jipe e seu focinho começava a se irritar pelo odor a pólvora queimada que impregnava a brisa. Horn olhou para a lua. Ela retornou o olhar. E ele se lembrou de sua mãe.
“Nós iremos por trás”, disse ela, antes da ‘missão’ começar. “cinco minutos depois de vocês terem começado a distrair os soldados, nós vamos fazer um buraco na carcaça do galpão e entrar. O Roger, diz que conhece a base, ele sabe o que está fazendo. Então força lá na linha de frente, querido.” E finalizou com um beijo na testa de seu filho mais velho. “Mas mãe, COMO VOCÊ SABE DISSO?”, perguntou ele, aos gritos. “Eu sou tua mãe, eu sei de tudo, seu bobo. Cuide bem dos teus irmãos! E tente sobreviver! Se der, a gente vai no cinema depois dessa, ver aqueles filmes que você e teu irmão gostam tanto.”
Ah, é mesmo. Seus irmãos estavam em algum lugar daquele caos, inexplicavelmente segurando um fuzil. Talvez até atirando. E tudo por que, pensou ele. Porque sua mãe estava lá dentro e precisava deles. “E por que EU não estou atirando?” se perguntou. Olhou uma vez mais para a lua e encheu seus pulmões de ar. Encheu seus pulmões de ar, segurou sua pistola do jeito que sempre vira seus heróis do velho oeste fazer, e se virou, apoiando seu braço sobre o capô do jipe, esvaziando seu cartucho enquanto gritava desesperadamente. Sem mirar, sem esperar acertar alguém. Só atirou. E acertou! Não um dos soldados, mas sim o maldito holofote que até então impedia aos hippies ver contra quem estavam se enfrentando.
-RÁ! Boa, Hornildooooo! Toca aqui!
-Agora não, Ió. – Sussurrou ele, voltando para a segurança de detrás do jipe. Ele estava se sentindo ótimo, vivo! Cada tranco que a pistola dava, era como se uma onda de energia tomasse conta de seu corpo. O mais rápido que pôde recarregou sua pistola e voltou para olhar o estrago que havia feito.
A fachada do galpão, iluminada com suficiente claridade pelo luar, estava esburacada. Sobre o portão, o que antes parecia ser a única entrada para a base, haviam-se aberto três portinholas desde onde uns quatro soldados disparavam contra a horda hippie. O holofote, que antes ocupava a porta do meio, havia sido jogado para fora depois de inutilizado. Não dava pra saber quantos eram, nem quantos já haviam matado, mas isso de repente passou a não ter importância para Horn. O coiote apenas empunhou sua pistola e acompanhou a serenata de disparos que continuou por mais alguns minutos sem nenhum resultado. Os hippies eram rápidos o suficiente como para disparar e esconder-se, um de cada vez, confundindo os poucos soldados que respondiam com suas armas de repetição e sua munição infinita. Esse último preocupava, e muito, a Horn. Na empolgação, gastou três dos cinco cartuchos que tinha nos bolsos.
-Ai, que merda… – Murmurou o gato negro com a bandana, olhando por cima do capô. Intrigados, Horn e Ió levantaram a vista também e viram como um par de granadas sobrevoava a distância entre o outro jipe e a base. Gritos de “cuidado”por parte dos hippies invadiram o campo de batalha antes que a explosão fizesse o jipe voar alguns centímetros do chão e capotar, em chamas.
-NÃO! – Berrou Horn, pensando em seus irmãos, fazendo menção de se levantar.
-Sossega o facho aí! – Disse Ió, puxando-o pela camisa e fazendo-o cair sentado no chão. – Não é hora disso.
-Meus irmãos…
-Eles devem estar bem. – Disse ela, coma maior naturalidade do mundo, como se estivessem ainda em um dos muitos acampamentos que fizeram naquele deserto, conversando sobre coisas fúteis e sem sentido. Mais sem sentido que fúteis. – Agora você vai é me ajudar. Não conta pro tio Mike, mas estou morta de vontade de saber o que ele quer tanto. Vamos entrar lá.
-QUÊ?!
-Marc, você nos ajuda? – Perguntou Ió, ignorando a estupefação de Horn.
-Claro, Ió, achava que tu não ias perguntar nunca. O que tu tá planejando?
-Vocês estão malucos?!
-Cala a boca, Horn, já já tá chovendo mais dessas encima da gente. Continua atirando!
Horn hesitou por um momento, mas obedeceu. Voltou a atirar em direção às portinholas, enquanto ouvia os planos de Ió. Se é que aquilo poderia ser chamado de um plano.
-Opa, tô dentro. – Disse Marc, um sorriso excitado embaixo dos bigodes felinos.
-Isso é brincadeira, né?
-AGORA! – Gritou ela.
Marc abriu a porta do jipe e pulou para dentro. Ió puxou a manga de Horn e ambos saíram correndo para o caminhão, onde todos os outros estavam. Uma saraivada de tiros lhes recebeu, quase alcançando a cauda de Hornildo. Quando chegaram atrás do caminhão, ofegantes, todos os outros os olharam intrigados, se perguntando o que iriam fazer.
-Não parem de atirar, pessoal! – Gritou ela, ao mesmo tempo que o som de um motor entrando em ignição superava ao rugir das armas, incansáveis. – AGORA, HORNILDOOOO! – E saiu correndo uma vez mais, desta vez em direção do galpão, da base.
-NÃO ME CHAME DE HORNILDO!!
Tudo pareceu acontecer em câmera lenta para Hornildo. Ele saiu da proteção da caçamba do caminhão e começou a seguir Ió numa desembestada corrida em direção daqueles que os disparavam. Ao mesmo tempo, o jipe onde Marc havia entrado começava a rodar seus pneus sobre o solo árido, levantando uma nuvem de poeira antes de entrar em marcha. Horn olhou para cima. Os disparos dos militares haviam cessado brevemente, e novamente um par de granadas era jogado; iria sobrevoar suas cabeças e chocar contra a caçamba do caminhão, talvez conseguindo o mesmo efeito conseguido com o jipe.
Mas Ió havia parado. Sim, e se girou para Horn, o qual, tentando não transparecer o terror em sua face, juntou suas duas mãos na altura de seu joelho e as ofereceu a uma Ió que jogava seu fuzil no chão. Uma Ió que, serenamente, como se estivesse a dançar balé, usou as mãos e o ombro de Horn como escada. E pulou, o mais alto que pôde, o suficiente como para agarrar ambas granadas. Enquanto seu corpo caía com toda a graça do mundo, atirou as bombas em direção contrária ao seu primeiro destino. Enquanto Horn tentava aparar a queda de Ió, as granadas explodiam a poucos metros das portas da base.
Uma buzina e um par de faróis chamaram a atenção de Horn. Era Marc, vindo em sua direção com o jipe, sem o capô. Pela explosão das granadas e a cobertura dos outros hippies atrás do caminhão, a saraiva de balas dos militares havia cessado. Sem querer saber quanto mais duraria a trégua antes de mais disparos caírem sobre eles, quando o jipe parou perto deles, Horn jogou Ió de qualquer jeito no banco de trás e se agarrou na armação do jipe, meio corpo de fora do veículo. Sem esperar qualquer sinal, Marc pisou novamente no acelerador.
Horn se sentia ótimo. Morrendo de medo de que a qualquer momento um militar podia levantar-se na janela e acertar sua cabeça desprotegida. Mas o fato de sentir toda aquela adrenalina em suas veias e ouvir como Ió se debatia no bando de trás para sentar-se direito, o fazia se sentir muito bem. Nem o fato do portão estar se aproximando tão rápido lhe assustava. E Marc continuava acelerando… Ainda restara algo de fogo das granadas, o portão parecia um pouco gasto, mas…
-Marc, espera aí… MARC! VAMOS BATER!
-IHÁÁÁÁÁÁ!! – Berrou o gato, enquanto o jipe destroçava o portão de entrada da base.
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Neste capítulo, um pouco menos de blá blá blá. Senti que haveria espaço na história para um pouco de ação absurda, portanto, aqui está ela:
Capítulo 3 – Trocando Olhares com o Luar
Começara a bater uma brisa gostosa naquela noite banhada pela luz espectral da lua cheia, uma brisa que o coiote Hornildo até degustaria com os olhos fechados se não estivesse no momento mais tenso de sua vida, apertando contra si uma pistola que havia sobrado no caixote de armamentos. Ele engolia sem eco a cada três passos que dava, misturado em meio aquele pequeno grupo de uns quinze hippies, confiantes e bem armados, que se dirigiam à entrada do terreno daquele velho galpão que em teoria era uma base secreta do exército.
“Talvez isso tudo seja só maluquice desses caras. Talvez isto esteja mesmo abandonado.” Pensava o coiote, tentando controlar seus nervos enquanto arrastava suas patas pelo solo árido. O terreno não era fechado por um portão, simplesmente havia uma trégua de arame farpado grande o suficiente para se passar um caminhão. Os três veículos e únicos objetos que ocupavam o lugar além do galpão se quedaram imutáveis ali, como se observando, indiferentes, a aproximação dos intrusos. Estavam quase entrando. Quando o primeiro da fila pisou do outro lado da linha imaginária que separava o tal santuário militar do resto do mundo, Horn fechou os olhos, esperando o primeiro tiro. Esperou um, dez, vinte segundos, mas nada aconteceu. Viu que estava sendo deixado para trás.
-Pessoal, vamos embora! Não tem ninguém aqui, senão alguém já teria caído morto… – Começou a murmurar ele, correndo para tentar alcançar o grupo. Mas um som metálico mais a frente lhe interrompeu. Todos pararam e, dois segundos de um matador silêncio depois, um feixe de uma ofuscante luz artificial caiu sobre eles. Alguém, lá do galpão, acabava de ligar um holofote contra seus olhos.
-Escondam-se! – Gritou o raposo que liderava a fila, e num piscar de olhos, todos os hippies se espalharam pelo campo baldio, para buscar abrigo atrás dos jipes e do caminhão. Todos menos Horn, é claro.
-Vocês estão loucos? O plano é distraí-los, não pedir de cara que atirem na gente! EI!! – Gritou ele, acenando com ambas mãos, agitando a pistola em direção do feixe de luz, sem conseguir ver quase nada. – NÃO ATIREM!! POR QUE NÃO DESCEM AQUI PRA GENTE CONVER…?!
-HORNILDO!!
Mais uma vez ele não pôde completar sua frase. Antes de que uma arma fosse disparada desde algum lugar dentro do galpão em direção de Horn, Ió saltou de seu esconderijo e o atropelou, ambos capotando pelo chão, evitando o disparo. A garota se levantou imediatamente e puxou o braço do chocado coiote.
-Levanta, Hornildo, levanta!!
-Quer parar de gritar meu nome desse jeito, sua maluca? – Contestou ele, furioso, levantando-se e correndo para trás de um dos jipes com Ió, quase ao mesmo tempo que uma rajadas de projéteis atingia o chão, bem onde estavam. A rajada os acompanhou por um fio até chocar contra a blindagem do jipe. Horn encostou-se contra uma roda e fechou a cara, ofegante. – Por que já estão atirando na gente? Eles são o exército, saco, não terroristas!
-Talvez eles não sejam, guri, mas nós meio que somos. – Respondeu um gato negro de bandana multicolorida ao seu lado, soltando uma risadinha. – Essa é a prova de que seja lá o que eles estiverem fazendo aí dentro, é importante demais como para deixar qualquer um descobrir. – Enquanto dizia isso, Horn pôde ouvir os primeiros disparos dos hippies contra a base militar. – Se tu estiveres tão curioso quanto eu pra ver qual é a de tanta proteção, começa a atirar, guri. – Dito isso, empunhou firmemente seu fuzil e, deixando sua testa aparecer ligeiramente sobre o capô do jipe, começou a atirar.
De onde esses caras tiram toda essa coragem insana? Eles tomaram alguma droga nova? Algum soro do super soldado? Porque não é possível que um bando de hippies maconheiros que até ontem se limitavam a fazer rodinhas de Rock N’ Roll paz e amor assim, de repente, estivessem enfrentando o exército dos Estados Unidos da América para invadir uma base que escondia algo que nem eles sabiam o que era!
“Loucura”, pensou Horn, suas mãos suadas tremendo, empunhando a pistola. “Isto é uma baita loucura, não pode estar acontecendo…” o som dos disparos era ensurdecedor, Horn podia sentir em suas costas o impacto das balas dos militares contra o jipe e seu focinho começava a se irritar pelo odor a pólvora queimada que impregnava a brisa. Horn olhou para a lua. Ela retornou o olhar. E ele se lembrou de sua mãe.
“Nós iremos por trás”, disse ela, antes da ‘missão’ começar. “cinco minutos depois de vocês terem começado a distrair os soldados, nós vamos fazer um buraco na carcaça do galpão e entrar. O Roger, diz que conhece a base, ele sabe o que está fazendo. Então força lá na linha de frente, querido.” E finalizou com um beijo na testa de seu filho mais velho. “Mas mãe, COMO VOCÊ SABE DISSO?”, perguntou ele, aos gritos. “Eu sou tua mãe, eu sei de tudo, seu bobo. Cuide bem dos teus irmãos! E tente sobreviver! Se der, a gente vai no cinema depois dessa, ver aqueles filmes que você e teu irmão gostam tanto.”
Ah, é mesmo. Seus irmãos estavam em algum lugar daquele caos, inexplicavelmente segurando um fuzil. Talvez até atirando. E tudo por que, pensou ele. Porque sua mãe estava lá dentro e precisava deles. “E por que EU não estou atirando?” se perguntou. Olhou uma vez mais para a lua e encheu seus pulmões de ar. Encheu seus pulmões de ar, segurou sua pistola do jeito que sempre vira seus heróis do velho oeste fazer, e se virou, apoiando seu braço sobre o capô do jipe, esvaziando seu cartucho enquanto gritava desesperadamente. Sem mirar, sem esperar acertar alguém. Só atirou. E acertou! Não um dos soldados, mas sim o maldito holofote que até então impedia aos hippies ver contra quem estavam se enfrentando.
-RÁ! Boa, Hornildooooo! Toca aqui!
-Agora não, Ió. – Sussurrou ele, voltando para a segurança de detrás do jipe. Ele estava se sentindo ótimo, vivo! Cada tranco que a pistola dava, era como se uma onda de energia tomasse conta de seu corpo. O mais rápido que pôde recarregou sua pistola e voltou para olhar o estrago que havia feito.
A fachada do galpão, iluminada com suficiente claridade pelo luar, estava esburacada. Sobre o portão, o que antes parecia ser a única entrada para a base, haviam-se aberto três portinholas desde onde uns quatro soldados disparavam contra a horda hippie. O holofote, que antes ocupava a porta do meio, havia sido jogado para fora depois de inutilizado. Não dava pra saber quantos eram, nem quantos já haviam matado, mas isso de repente passou a não ter importância para Horn. O coiote apenas empunhou sua pistola e acompanhou a serenata de disparos que continuou por mais alguns minutos sem nenhum resultado. Os hippies eram rápidos o suficiente como para disparar e esconder-se, um de cada vez, confundindo os poucos soldados que respondiam com suas armas de repetição e sua munição infinita. Esse último preocupava, e muito, a Horn. Na empolgação, gastou três dos cinco cartuchos que tinha nos bolsos.
-Ai, que merda… – Murmurou o gato negro com a bandana, olhando por cima do capô. Intrigados, Horn e Ió levantaram a vista também e viram como um par de granadas sobrevoava a distância entre o outro jipe e a base. Gritos de “cuidado”por parte dos hippies invadiram o campo de batalha antes que a explosão fizesse o jipe voar alguns centímetros do chão e capotar, em chamas.
-NÃO! – Berrou Horn, pensando em seus irmãos, fazendo menção de se levantar.
-Sossega o facho aí! – Disse Ió, puxando-o pela camisa e fazendo-o cair sentado no chão. – Não é hora disso.
-Meus irmãos…
-Eles devem estar bem. – Disse ela, coma maior naturalidade do mundo, como se estivessem ainda em um dos muitos acampamentos que fizeram naquele deserto, conversando sobre coisas fúteis e sem sentido. Mais sem sentido que fúteis. – Agora você vai é me ajudar. Não conta pro tio Mike, mas estou morta de vontade de saber o que ele quer tanto. Vamos entrar lá.
-QUÊ?!
-Marc, você nos ajuda? – Perguntou Ió, ignorando a estupefação de Horn.
-Claro, Ió, achava que tu não ias perguntar nunca. O que tu tá planejando?
-Vocês estão malucos?!
-Cala a boca, Horn, já já tá chovendo mais dessas encima da gente. Continua atirando!
Horn hesitou por um momento, mas obedeceu. Voltou a atirar em direção às portinholas, enquanto ouvia os planos de Ió. Se é que aquilo poderia ser chamado de um plano.
-Opa, tô dentro. – Disse Marc, um sorriso excitado embaixo dos bigodes felinos.
-Isso é brincadeira, né?
-AGORA! – Gritou ela.
Marc abriu a porta do jipe e pulou para dentro. Ió puxou a manga de Horn e ambos saíram correndo para o caminhão, onde todos os outros estavam. Uma saraivada de tiros lhes recebeu, quase alcançando a cauda de Hornildo. Quando chegaram atrás do caminhão, ofegantes, todos os outros os olharam intrigados, se perguntando o que iriam fazer.
-Não parem de atirar, pessoal! – Gritou ela, ao mesmo tempo que o som de um motor entrando em ignição superava ao rugir das armas, incansáveis. – AGORA, HORNILDOOOO! – E saiu correndo uma vez mais, desta vez em direção do galpão, da base.
-NÃO ME CHAME DE HORNILDO!!
Tudo pareceu acontecer em câmera lenta para Hornildo. Ele saiu da proteção da caçamba do caminhão e começou a seguir Ió numa desembestada corrida em direção daqueles que os disparavam. Ao mesmo tempo, o jipe onde Marc havia entrado começava a rodar seus pneus sobre o solo árido, levantando uma nuvem de poeira antes de entrar em marcha. Horn olhou para cima. Os disparos dos militares haviam cessado brevemente, e novamente um par de granadas era jogado; iria sobrevoar suas cabeças e chocar contra a caçamba do caminhão, talvez conseguindo o mesmo efeito conseguido com o jipe.
Mas Ió havia parado. Sim, e se girou para Horn, o qual, tentando não transparecer o terror em sua face, juntou suas duas mãos na altura de seu joelho e as ofereceu a uma Ió que jogava seu fuzil no chão. Uma Ió que, serenamente, como se estivesse a dançar balé, usou as mãos e o ombro de Horn como escada. E pulou, o mais alto que pôde, o suficiente como para agarrar ambas granadas. Enquanto seu corpo caía com toda a graça do mundo, atirou as bombas em direção contrária ao seu primeiro destino. Enquanto Horn tentava aparar a queda de Ió, as granadas explodiam a poucos metros das portas da base.
Uma buzina e um par de faróis chamaram a atenção de Horn. Era Marc, vindo em sua direção com o jipe, sem o capô. Pela explosão das granadas e a cobertura dos outros hippies atrás do caminhão, a saraiva de balas dos militares havia cessado. Sem querer saber quanto mais duraria a trégua antes de mais disparos caírem sobre eles, quando o jipe parou perto deles, Horn jogou Ió de qualquer jeito no banco de trás e se agarrou na armação do jipe, meio corpo de fora do veículo. Sem esperar qualquer sinal, Marc pisou novamente no acelerador.
Horn se sentia ótimo. Morrendo de medo de que a qualquer momento um militar podia levantar-se na janela e acertar sua cabeça desprotegida. Mas o fato de sentir toda aquela adrenalina em suas veias e ouvir como Ió se debatia no bando de trás para sentar-se direito, o fazia se sentir muito bem. Nem o fato do portão estar se aproximando tão rápido lhe assustava. E Marc continuava acelerando… Ainda restara algo de fogo das granadas, o portão parecia um pouco gasto, mas…
-Marc, espera aí… MARC! VAMOS BATER!
-IHÁÁÁÁÁÁ!! – Berrou o gato, enquanto o jipe destroçava o portão de entrada da base.
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