Premonição
Era a primeira manhã de um dos invernos mais gélidos que o jovem lobo já vivenciara. Levantou-se de sua cama e, produzindo uma intensa nuvem de ar condensado ao bocejar, lavou seu rosto e se reuniu a sua família para o desjejum. Pelo que parecia, seu pai já havia saído para trabalhar no campo e lá apenas estavam sua mãe, quem parecia convencer sua irmã alguns anos mais jovem que ele de algo, seu irmão mais velho que jogueteava com seu pedaço de pão, os olhos expressando uma noite mal dormida e seu irmão mais novo, que por sua vez devorava vorazmente seu pão.
Apressou-se em imitar o caçula e engoliu seu café da manhã em dois bocados. Tinha pressa, havia combinado que se encontraria com a garota à frente do lago aquela manhã e não queria chegar tarde. Havia prometido ajudar seu pai mais tarde, então queria desfrutar o máximo de tempo com ela. Sua mãe lhe dedicou um olhar severo, provavelmente já suspeitava de algo, mas não tardou em voltar a falar com a resmungona garota.
Articulou uma despedida e, abrigando-se o máximo que pôde, saiu, o gélido vento queimando seu focinho. Ainda não havia chego ao ponto de nevar no vilarejo, mas as montanhas que o rodeavam tinham seus picos cobertos por uma alva camada, brilhantes auras iluminadas pelo sol nascente. Caminhou a passos largos o quilometro que separava sua casa do lago, sem prestar atenção no anormal silencio ao seu redor. Não se encontrou com ninguém nas ruas. Mesmo com o frio, não era normal que ninguém estivesse se dedicando ainda a suas vidas quotidianas.
Mas o silencio ia sendo quebrado a medida que se aproximava do lago; pássaros gorjeavam em coro, como se invocando a primavera antes do tempo. Até a gélida brisa pareceu fazer-se mais amena. Afinal, lá estava ela, sentada às suas margens, olhando para um par de cisnes que pousavam no meio do lago. Poderia ser uma simples peça que seus olhos lhe pregavam, mas a grama parecia bem mais verde ao seu redor.
Tocou em seu ombro, sorrindo ao ver mais uma vez seu belo rosto. Ela lhe dedicou um sorriso. Típico dela, perdido, distante, estranho. E adorável. O jovem lobo devolveu o sorriso, abertamente, sem se surpreender ao vê-la voltar a mirada novamente aos cisnes, os quais agora nadavam lado a lado pela superfície plana do lago, provocando discretas ondas que logo desapareciam. Era uma atitude normal desta misteriosa garota e o que mais lhe atraia dela. Mesmo assim, sentiu que havia algo de errado.
Ele sentou-se ao seu lado e perguntou se tinha acontecido algo. Ela não respondeu imediatamente, se limitou a passar seu indicador por seus ruivos cabelos, assistindo aos cisnes levantarem vôo novamente e se perderem sobre o bosque. Finalmente, dedicou um longo suspiro e comentou, numa voz firme, sem encará-lo ainda:
- Você não deve se apaixonar por alguém como eu. – Ele não entendeu. O que era aquilo de repente? – Se lembra de quando eu lhe disse como minha família é diferente em alguns pontos? – Agora sim ela lhe encarava. Era o olhar mais cálido que já lhe havia dedicado, mas mesmo assim não conseguia distinguir nenhuma emoção. – As pessoas começarão a alertar-te, depois a evitar-te. Você ignorará os avisos e começará a ser odiado também. As pessoas costumam ver certas coisas nas entrelinhas, frutos de sua imaginação. Uma imaginação criada pelo medo de cada dia, pelas gélidas garras do medo ao desconhecido... – Isso não estava bem... Do que ela estava falando? Seja do que fosse, seus olhos demonstravam seriedade. Seriedade e nada mais. – E uma noite, com suas ameaçadoras tochas e tridentes, eles encontrarão à garota sem nome e aquele que tiver seu amor, nunca mais estará a salvo. Por favor, pelo teu bem, não venha mais aqui. – Ela então, se levantou. Se levantou e começou a caminhar em direção à trilha, como sempre fizera durante aqueles meses que haviam se passado desde seu primeiro encontro.
Mas desta vez ela não voltaria o dia seguinte.
Ele correu atrás dela e segurou com firmeza seu braço. Berrou que aquilo era loucura, que não se importava com o que pensavam, os outros. Que ele a amava. Que faria de tudo, fugiria de casa, mataria para poder ficar ela. Jurou até suprimir seu amor em seu peito num momento de desespero para poder continuar vendo-a. Nada adiantou. Ela simplesmente desvencilhou-se com facilidade e continuou seu caminho, sem olhar para trás.
Caído de joelhos sobre o gramado que aparentava deixar de ter aquela viva coloração, lágrimas inundando seus olhos, uma dor intensa e inexplicável em seu peito, assistiu como a raposa caminhava, cabeça baixa, até seu maldito bosque, onde se perderia como os cisnes que o haviam sobrevoado havia um momento. Uma lágrima parecia escorrer pela pelagem avermelhada de seu rosto, mas talvez fosse apenas sua imaginação.
Assim como aqueles meses de estranha felicidade.
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Era a primeira manhã de um dos invernos mais gélidos que o jovem lobo já vivenciara. Levantou-se de sua cama e, produzindo uma intensa nuvem de ar condensado ao bocejar, lavou seu rosto e se reuniu a sua família para o desjejum. Pelo que parecia, seu pai já havia saído para trabalhar no campo e lá apenas estavam sua mãe, quem parecia convencer sua irmã alguns anos mais jovem que ele de algo, seu irmão mais velho que jogueteava com seu pedaço de pão, os olhos expressando uma noite mal dormida e seu irmão mais novo, que por sua vez devorava vorazmente seu pão.
Apressou-se em imitar o caçula e engoliu seu café da manhã em dois bocados. Tinha pressa, havia combinado que se encontraria com a garota à frente do lago aquela manhã e não queria chegar tarde. Havia prometido ajudar seu pai mais tarde, então queria desfrutar o máximo de tempo com ela. Sua mãe lhe dedicou um olhar severo, provavelmente já suspeitava de algo, mas não tardou em voltar a falar com a resmungona garota.
Articulou uma despedida e, abrigando-se o máximo que pôde, saiu, o gélido vento queimando seu focinho. Ainda não havia chego ao ponto de nevar no vilarejo, mas as montanhas que o rodeavam tinham seus picos cobertos por uma alva camada, brilhantes auras iluminadas pelo sol nascente. Caminhou a passos largos o quilometro que separava sua casa do lago, sem prestar atenção no anormal silencio ao seu redor. Não se encontrou com ninguém nas ruas. Mesmo com o frio, não era normal que ninguém estivesse se dedicando ainda a suas vidas quotidianas.
Mas o silencio ia sendo quebrado a medida que se aproximava do lago; pássaros gorjeavam em coro, como se invocando a primavera antes do tempo. Até a gélida brisa pareceu fazer-se mais amena. Afinal, lá estava ela, sentada às suas margens, olhando para um par de cisnes que pousavam no meio do lago. Poderia ser uma simples peça que seus olhos lhe pregavam, mas a grama parecia bem mais verde ao seu redor.
Tocou em seu ombro, sorrindo ao ver mais uma vez seu belo rosto. Ela lhe dedicou um sorriso. Típico dela, perdido, distante, estranho. E adorável. O jovem lobo devolveu o sorriso, abertamente, sem se surpreender ao vê-la voltar a mirada novamente aos cisnes, os quais agora nadavam lado a lado pela superfície plana do lago, provocando discretas ondas que logo desapareciam. Era uma atitude normal desta misteriosa garota e o que mais lhe atraia dela. Mesmo assim, sentiu que havia algo de errado.
Ele sentou-se ao seu lado e perguntou se tinha acontecido algo. Ela não respondeu imediatamente, se limitou a passar seu indicador por seus ruivos cabelos, assistindo aos cisnes levantarem vôo novamente e se perderem sobre o bosque. Finalmente, dedicou um longo suspiro e comentou, numa voz firme, sem encará-lo ainda:
- Você não deve se apaixonar por alguém como eu. – Ele não entendeu. O que era aquilo de repente? – Se lembra de quando eu lhe disse como minha família é diferente em alguns pontos? – Agora sim ela lhe encarava. Era o olhar mais cálido que já lhe havia dedicado, mas mesmo assim não conseguia distinguir nenhuma emoção. – As pessoas começarão a alertar-te, depois a evitar-te. Você ignorará os avisos e começará a ser odiado também. As pessoas costumam ver certas coisas nas entrelinhas, frutos de sua imaginação. Uma imaginação criada pelo medo de cada dia, pelas gélidas garras do medo ao desconhecido... – Isso não estava bem... Do que ela estava falando? Seja do que fosse, seus olhos demonstravam seriedade. Seriedade e nada mais. – E uma noite, com suas ameaçadoras tochas e tridentes, eles encontrarão à garota sem nome e aquele que tiver seu amor, nunca mais estará a salvo. Por favor, pelo teu bem, não venha mais aqui. – Ela então, se levantou. Se levantou e começou a caminhar em direção à trilha, como sempre fizera durante aqueles meses que haviam se passado desde seu primeiro encontro.
Mas desta vez ela não voltaria o dia seguinte.
Ele correu atrás dela e segurou com firmeza seu braço. Berrou que aquilo era loucura, que não se importava com o que pensavam, os outros. Que ele a amava. Que faria de tudo, fugiria de casa, mataria para poder ficar ela. Jurou até suprimir seu amor em seu peito num momento de desespero para poder continuar vendo-a. Nada adiantou. Ela simplesmente desvencilhou-se com facilidade e continuou seu caminho, sem olhar para trás.
Caído de joelhos sobre o gramado que aparentava deixar de ter aquela viva coloração, lágrimas inundando seus olhos, uma dor intensa e inexplicável em seu peito, assistiu como a raposa caminhava, cabeça baixa, até seu maldito bosque, onde se perderia como os cisnes que o haviam sobrevoado havia um momento. Uma lágrima parecia escorrer pela pelagem avermelhada de seu rosto, mas talvez fosse apenas sua imaginação.
Assim como aqueles meses de estranha felicidade.
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Category Story / All
Species Unspecified / Any
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Ai ai...
A historia me cativa mais e mais a cada capitulo que leio, Hreter~ Acho simplesmente incrivel essa sua habilidade de agrupar as palavras de uma forma tao magica, que parece ate real! Cada detalhe, cada descriçao, cada palavra de seus textos parecem que foram organizados como que por magica, de tao maravilhosos! ^^ Saiba que estou muito ansioso pelo proximo capitulo ;3
Algo muito marcante nos seus textos (ou, ao menos nesse que venho acompanhando), é o fato de você raramente usar dialogos, e ainda assim, manter um enredo agradavel e magicamente indescritivel! E posso de certa forma afirmar que voce é o unico a possuir tal habilidade! Nunca vi outro escritor que escreve narrativas assim, com tanta ausencia de dialogos ^^
Tenha em mente que vou ficar muito, muito chateado se voce nao publicar, ao menos, um livro, hehe ;3 Que tenho certeza que vai ser, no minimo, um bestseller x3
E apos esse longo comentario, saiba que nao apenas amei, mas como estou tambem adorando a historia! Continue com esse seu magnifico trabalho =D
A historia me cativa mais e mais a cada capitulo que leio, Hreter~ Acho simplesmente incrivel essa sua habilidade de agrupar as palavras de uma forma tao magica, que parece ate real! Cada detalhe, cada descriçao, cada palavra de seus textos parecem que foram organizados como que por magica, de tao maravilhosos! ^^ Saiba que estou muito ansioso pelo proximo capitulo ;3
Algo muito marcante nos seus textos (ou, ao menos nesse que venho acompanhando), é o fato de você raramente usar dialogos, e ainda assim, manter um enredo agradavel e magicamente indescritivel! E posso de certa forma afirmar que voce é o unico a possuir tal habilidade! Nunca vi outro escritor que escreve narrativas assim, com tanta ausencia de dialogos ^^
Tenha em mente que vou ficar muito, muito chateado se voce nao publicar, ao menos, um livro, hehe ;3 Que tenho certeza que vai ser, no minimo, um bestseller x3
E apos esse longo comentario, saiba que nao apenas amei, mas como estou tambem adorando a historia! Continue com esse seu magnifico trabalho =D
FA+

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