Capítulo VII – Maionese Vermelho-Sangue
-Vou evitar dar uma risadinha sarcástica e ignorar o que você acaba de dizer. Agora, tente de novo, querida, qual é o plano de vocês?
-Eu disse, tirar daqui essa nave gigantesca que vocês enterraram aqui, no meio do deserto.
-Vocês estão mortos, sabia?
-E você também estará, portanto se esforce em nos levar até meu chefe, ok?
Esse diálogo apenas flutuou entorno de Horn, quem ainda tentava processar a ideia de tirar de vai-saber-quantos metros de profundidade uma nave alienígena de dimensões colossais. Conhecia bem sua mãe, o suficiente para saber que ela estava falando sério. Estava usando aquele tom de voz que usam as mães quando sabem que estão certas.
A têmpora da raposa albina tremeu ligeiramente. Ela então suspirou, esfregando os olhos por debaixo dos óculos, em sinal de derrota.
-Tudo bem, os levarei até lá. – Disse, finalmente. – Mas pra isso vocês vão precisar seguir meu jogo, confiar em mim… E deixar esse peso morto para trás. – Ao dizer esse último, fez um gesto de desprezo em direção ao agonizante Marc, consolado por uma impotente Ió.
-Não, ele vem com a gente. – Afirmou Ió, sem nem se dar ao trabalho de levantar a mirada.
-Não seja ridícula, garota. As chances de vocês chegarem naquela nave já são baixíssimas sem ter um corpo que carregar. – A fúria começava a substituir a indignação da raposa.
-Você a ouviu. – Apoiou Horn, garganta seca, sem ter certeza de que era aquilo mesmo que queria dizer. Afinal, ela tinha razão, não tinha? Como iriam tirar Marc dali se ele mal conseguia andar? – Marc vem com a gente. – Pôde ver como sua mãe fazia uma expressão de “é isso aí” que poderia parecer cômica em uma ocasião menos tensa.
-Ninguém mandou atirar nele. – Completou ela.
-Ah, sim, meu senso comum mandou. Mas acho que vocês não entenderiam, não parecem ter nenhum! – Bramou a vulpina, antes de uma pausa. Novo suspiro, nova expressão de derrota. Parecia fazer tempo que ela não se sentia derrotada tantas vezes seguidas em um único dia: seu semblante aparentava ganhar vários anos a cada suspiro. – Muito bem. Só temos uma forma de passar, e é atuando. Nós aqui dentro não temos armas de longa distância, então temos que ser rápidos o bastante para chegar até a nave antes que os meus queridos imbecis aqui fora chamem reforços. Tudo seria mais fácil se tivéssemos um homem pra carregar o peso morto. E você, franguinho, não ofenda aos homens do mundo, porque tu e teu peso-pluma não contam.
-Eu consigo carregar ele. – Se impôs Horn, buscando o apoio de Ió e sua mãe, mas tudo o que conseguiu foi um sorriso amarelo de sua progenitora. – Ah, qual é! Eu jogava basquete lá na Califórnia! E a Ió vai me ajudar… Ió, espera aí! – Ió já havia passado o braço de Marc ao redor de seu pescoço e o levantava custosamente. Horn se apressou em ajuda-la, amparando seu companheiro ensanguentado.
-Então parece que o papel principal sobrou pra senhora… Qual era o teu nome mesmo? – perguntou, apontando para a mãe de Horn.
-Marilyn. – Respondeu ela, com um sorriso abertíssimo. – Marilyn Mon…
-Mãe! Você não se chama assim, para com isso! – Berrou Horn do outro lado da sala, indignado com a piada.
-Sem-graça, você! Agora eu me chamo Marilyn Monroe sim, senhorito. – Insistiu “Marilyn”, piscando para a senhora Thompson. – Nos explique teu plano. Acho que não vai demorar muito até descobrirem que a explosão foi aqui.
-É, eles já devem saber. Se tivermos sorte, teus amigos lá fora são ariscos o suficiente para nos dar uns quantos minutos a mais, distraindo a segurança lá encima. Pra fazer os quatro gatos pingados lá fora deixarem suas armas no chão, você vai ter que me usar de refém. Vamos, pegue meu pescoço. – Disse ela, chamando Marilyn para si.
-Como? Assim? – A coiote, mais hábil do que Horn jamais pudesse imaginar, a pegou em uma perfeita chave de braço, a deixando tal qual um escudo a sua frente, a pistola apontada à orelha branca da raposa.
-Cof… Não tão apertado, droga! Cof… Vou precisar falar!
-Tsc, tudo tem que ser o mais convincente possível. – Contestou ela, sorrindo marotamente para Horn, Ió e Marc. – Agora seja uma boa refém e abra essa porta, por favor.
Horn ajudou Ió a carregar Marc até a porta. Seu companheiro continuava respirando, porém cada vez com mais dificuldade; o sangue brotava de sua ferida tal qual uma pequena fonte, manchando sua larga camiseta amarelada, enquanto murmurava coisas desconexas, beirando a inconsciência. E tossia. Tossia muito. Aquilo estava começando a preocupa-lo de verdade. Precisavam tirá-lo dali rápido e leva-lo ver um médico! Apenas podia torcer para haver algum onde sua mãe de nome novo quisesse levar a maldita nave espacial.
A senhora Thompson destrancou a porta digitando um código numa tela tátil, um segundo antes da senhora Monroe meter um chute cinematográfico na porta e fazê-la escancarar-se, assustando tanto a Horn e Ió quanto aos cientistas que esperavam lá fora. Antes que algum deles pudesse gritar um “o que demônios está acontecendo”, a mãe de Horn empurrou à raposa pelo pescoço para fora de seu escritório com agressividade e berrou para os caras de jaleco, apertando a arma contra a testa de sua refém:
-Todos paradinhos aí! EU DISSE PARADOS! Você aí, a toupeira, nem pense nisso! Vocês vão ficar bem quietinhos se não quiserem que os miolos de sua chefe voem pelos ares! – Ela cuspia enquanto falava mais do que deveria ser possível, atingindo o rosto dos cientistas, todos com suas estupefatas expressões rodeando às duas mulheres, apontando para elas suas pistolas mas sem ter certeza do quê deveriam fazer. Notava-se que, depois de tudo, não passavam de meia dúzia de doutores empunhando armas de fogo.
A exceção à regra, porém, era o tal Hopkins. Emulando um policial com seus joelhos flexionados, ambas as mãos apertando com firmeza sua pistola e seu olhar de séria tensão, ele deu um passo afrente para desespero de seus companheiros.
-Fique tranquila, senhora Thompson. – Disse ele, com voz firme. – Não vou deixar eles passarem daqui. Você vai ficar bem.
-Hopkins, seu idiota! – Gritou a senhora Thompson, conseguindo cuspir ainda mais que sua opressora. – Você quer que eu morra, por um acaso? – A expressão de desconcerto de Hopkins foi impagável.
-Mas…
-Pense um pouco, meu rapaz. – Apoiou a mãe de Horn. – Ouça a voz da experiência de tua chefe, abaixe a arma e deixe-nos passar. Vocês todos, façam o mesmo. Não queremos machucar ninguém, apenas sair daqui.
-Abaixem essas armas, seus malditos! – Agonizou ela, batendo o pé. – Amanda, Zuko, Matt, Antonine, Foster! E você, Hopkins, seu energúmeno insubordinado! Eu vou ficar bem, mas só se vocês pararem de apontar me apontar com essas coisas!
O sentido comum, unido aos berros assustadores da raposa albina pareceram esclarecer a mente dos cientistas, os quais começavam a, lentamente, abaixar suas armas e dar um passo ao lado, deixando o corredor livre. Menos Hopkins, quem insistia em apontar sua arma à pseudo-Marilyn Monroe e sua refém.
-Como vou saber que não estão querendo sequestra-la?
-Hopkins… – Começou a senhora Thompson, mas seu subordinado insistiu:
-Não! Eu falo sério! Vou acompanha-los até onde querem ir, só pra ter certeza de que a devolverão. – Hopkins não respirava, bufava pela tensão e seus quilos a mais, mas parecia firme em sua decisão. A senhora Thompson ficou sem palavras.
-Nós não vamos sequestra-la, não é isso que viemos buscar, rapaz. – Disparou a terrorista de primeira viagem – Mas não temos tempo pra esta discussão. Você pode vir com a gente, mas só você.
-Certo. – Concordou Hopkins, visivelmente mais aliviado enquanto se dirigia a seus companheiros. – Corram para o interfone mais próximo e peçam para comunicar pelos autofalantes para ninguém interferir. Os seguranças externos. E confirmem que os idiotas das câmeras de segurança sabem o que está acontecendo aqui fora e não estão só aproveitando o show lá fora.
-Mas Hopkins, você… – começou a falar o que devia ser Zuko, um lobo cujos óculos estavam excessivamente tortos.
-Eu sei o que estou fazendo, ok? Vão logo, precisamos de reforços aqui!
E eles foram, correram na mesma direção em que Horn, Ió e Marc haviam sido trazidos até entrarem em uma nova porta deslizante. O imenso corredor agora pertencia a eles, silencioso e desértico, com aquela privilegiada visão da nave espacial, rodeada por todos os andares daquela estranha estrutura. Era possível ver como outros cientistas em outros andares corriam possivelmente ainda alertados pelo ataque.
-Vamos logo. Se formos rodeados por soldados não iremos muito longe. – Disse Marilyn, simulando uma voz sexy e glamorosa que fez o estômago de Horn se revirar. – Você aí, rapaz, vá na frente.
-E correr o risco de ser disparado nas costas? Não, obrigado.
-Se preferir, atiro em ti aqui mesmo, que tal? – Disse ela, apontando sua pistola para Hopkins. – Não nos faça perder tempo, sim? – A águia engoliu em seco, na dúvida se deveria ou não apontar-lhe também com a sua arma. Por via das dúvidas, preferiu obedecer.
-Tudo bem, posso leva-los até um compartimento de veículos onde vocês podem pegar um jipe e…
-Leve-os até um elevador, Hopkins. – Interrompeu-o sua superior, convincentemente fingindo não conseguir respirar. – Eles querem entrar na nave…
-Quê?!
-Menos ficar surpreso e mais mostrar onde fica o elevador, “rapazênho”. – A mãe de Horn gesticulava com certo desdém com sua pistola na direção de Hopkins. O jovem águia franziu o cenho e apontou para a direção contrária que seus companheiros haviam corrido, começando a andar com passos lentos e rítmicos. Marilyn, porém, chegou até suas costas e o empurrou com a ponta da pistola para que fosse mais rápido. Ele pareceu entender a mensagem.
Horn e Ió seguiam os três o mais perto que podiam, carregando a Marc com o máximo cuidado possível. O coiote, embora ainda preocupado com todo o problema em que estavam metidos, não deixava de dedicar olhadelas furtivas à Ió. Seu silêncio o incomodava amargamente. Devia haver algo errado com ela, nunca a vira com uma expressão tão séria.
-Ió, o que…? – Começou a perguntar ele, mas uma intensa voz surgiu do nada, pegando-os de surpresa, ecoando pelo corredor vazio.
-Parece que conseguiram dar o aviso pelo interfone. – Comentou Hopkins, identificando a voz feminina como sendo a da responsável pela megafonia. – Ninguém vai atrapalhá-los, seja lá o que planejam. – De repente ele parou e se dirigiu à sacada que dava para a nave alienígena, delimitada por um corrimão de um metro e meio. Passou o indicador no que parecia ser um interruptor e olhou para baixo. Em um par de segundos, o que aparentava ser um tubo transparente, grande o suficiente para se passar por um elevador, parou em sua frente. Ele então puxou o corrimão a modo de portinhola, permitindo a passagem e fez um sinal com a cabeça para que entrassem.
-Certeza que isso não vai cair, rapaz? – Perguntou Marilyn, após assoviar, impressionada. – Parece um pote de maionese gigante.
-É tecnologia que encontramos na nave, pare de reclamar e entre de uma vez! – Queixou-se a senhora Thompson, tentando puxar a coiote.
-Mais respeito com quem tem a arma aqui, velhota. – Contestou ela, esfregando a ponta da pistola na cabeleira da raposa, arrancando uma careta de dor dela e mil e uma ameaças de morte enquanto entravam no “pote de maionese ambulante”.
Uma vez lá dentro, Hopkins anunciou em voz alta que queriam ir ao “nível X”. Uma nova voz sem dono os envolveu, desta vez mais suave, pedindo o código de acesso. O águia olhou para sua superior, quem deixou escapar um profundo suspiro antes de gritar uma larga sequencia de caracteres que Horn nem ao menos sonhou em memorizar. Imediatamente começaram a descender em alta velocidade, sempre encarando à magnífica nave espacial.
Permaneceram em silêncio todo o descenso, com exceção de Marlyin, quem insistia em cantarolar uma musiquinha. Havia um marcador que indicava em quê nível se encontravam. Os números iam caindo a medida que eles desciam. Quando o painel chegou no 1, a escuridão os envolveu por um instante e foi logo substituída por uma iluminação púrpura do próprio elevador que chegava a ser soturna. O mostrador agora indicava letras ao invés de números e onde antes podiam ver a nave espacial, borrões que pareciam ser portas limitavam sua visão. A, B, C, D… Percorreram quase todo o alfabeto até chegarem no X. A porta cinzenta se estabilizou na frente deles e se abriu automaticamente, revelando um corredor cujas luzes se acenderam custosamente, piscando várias vezes até se estabilizarem.
-Só de estar aqui eu já sinto calafrios… – Murmurou Hopkins, o cenho mais franzido que nunca.
-E isso? – Horn não pôde deixar de perguntar. Lhe parecia estranho que, mesmo sendo membro da equipe e um subordinado tão próximo da senhora Thompson, ele não tivesse acesso à nave.
-Ele é um maricas, só isso. – Espetou a raposa, sem demora. – vamos, a entrada é no fim do corredor. – Horn e Ió começaram a tirar Marc do elevador, enquanto Marilyn empurrava a Hopkins atrás deles.
-JÁ CHEGA! – Berrou Hopkins. A senhora Thompson lhe fitou, irada, e a mãe de Horn lhe dedicou um cascudo na nuca, não muito forte.
-Mais respeito com os mais velhos, rapaz! – disse ela, em seu tom de voz brincalhão.
O águia, porém, não estava para brincadeiras, ao receber o soco da coiote, girou seu corpo com brutalidade, prensando o braço da mulher com o seu, deferindo-lhe um soco no rosto que a fez largar sua refém de mentira e cair contra a parede do elevador. Horn abriu ambos os olhos enfurecidamente e pulou encima do águia, deixando seu pulso cair no rosto do cientista de jaleco. Ele, porém, se manteve em pé e retornou o golpe com um chute no peito de Horn, conseguindo afastá-lo o suficiente para apontar sua arma à Horn. O coiote, porém, esperava por isso e, sem pensar nas consequências, abraçou o tronco de Hopkins e o estancou contra a parede transparente. Horn ouviu como a arma explodiu encima de si; seu ouvido começou a apitar, sua cabeça a doer, e mal pode evitar o par de cotoveladas nas costas que recebe de seu adversário. Afrouxa ligeiramente o abraço e deixa que o águia se livrasse de seu abraço e o empurrasse para fora do elevador e apontasse novamente sua arma, desta vez para a cabeça de Marilyn, quem naquele mesmo momento se levantava para tentar devolver o soco.
-PAREM! Parem agora mesmo, ou vou atirar em alguém, juro por Deus! – Impôs-se ele, tossindo um par de vezes pelo golpe de Horn. – Largue essa arma agora, sua desgraçada! Entregue ela para a senhora Thompson já!
A coiote hesitou. Olhou para cima, agachada, para o rosto da raposa alva. A senhora Thompson devolvia o olhar com frialdade, acariciando o pescoço como se sentindo aliviada. Finalmente, sem imutar sua expressão séria manchada com o sangue que lhe escorria do focinho, estendeu sua pistola à sua antiga refém, a qual aceitou a arma de bom grado.
-Obrigada, Hopkins. Finalmente você fez algo direito. – Murmurou ela.
-O que vamos fazer com eles, senhora? – Perguntou ele, antes de chutar Marilyn contra a parede do elevador. – Acho que deveríamos matá-los. São pessoas demais para…
Um disparo. O segundo é seguido de um terceiro, e um quarto finaliza a sequência. A cada projétil que penetra seu objetivo, o corpo de Hopkins recebe um solavanco, nos dois últimos amparado pela parede, aquela antes transparente, agora pintada de um intenso rubro a medida que o corpo do cientista de jaleco branco escorregava por ela, olhando perplexo para sua superior. Ele até tentou soltar um “Por quê?”, mas engasgou. Tentou também levantar sua própria arma em direção da traidora, mas a mesma foi mais rápida e obliterou seu subordinado com um ultimo disparo no peito.
-Acho que, a partir de hoje, você saberá manter seu bico bem fechado, não é, estúpido moleque? – Quase cantarolou ela, se agachando ao lado do corpo sem vida de Hopkins para tirar a arma de sua pata.
Horn queria sentir-se aliviado, mas não conseguiu. Ainda estava em choque pelo que acabava de ver. Caiu de joelhos, tentando controlar uma tremedeira que subitamente o atacou pela tensão, observando como sua mãe se levantava ao lado da raposa. Esta, sem aviso prévio, realizou um arco com seu punho branco como um relâmpago e golpeou o rosto da mãe de Horn, fazendo-a recuar um passo.
-Isso é por ter me chamado de velha, sua vadia. – E apontou ambas as pistolas à Marilyn, Horn, Ió e Marc. – Quem dá as cartas agora sou eu, cykas!
-Vou evitar dar uma risadinha sarcástica e ignorar o que você acaba de dizer. Agora, tente de novo, querida, qual é o plano de vocês?
-Eu disse, tirar daqui essa nave gigantesca que vocês enterraram aqui, no meio do deserto.
-Vocês estão mortos, sabia?
-E você também estará, portanto se esforce em nos levar até meu chefe, ok?
Esse diálogo apenas flutuou entorno de Horn, quem ainda tentava processar a ideia de tirar de vai-saber-quantos metros de profundidade uma nave alienígena de dimensões colossais. Conhecia bem sua mãe, o suficiente para saber que ela estava falando sério. Estava usando aquele tom de voz que usam as mães quando sabem que estão certas.
A têmpora da raposa albina tremeu ligeiramente. Ela então suspirou, esfregando os olhos por debaixo dos óculos, em sinal de derrota.
-Tudo bem, os levarei até lá. – Disse, finalmente. – Mas pra isso vocês vão precisar seguir meu jogo, confiar em mim… E deixar esse peso morto para trás. – Ao dizer esse último, fez um gesto de desprezo em direção ao agonizante Marc, consolado por uma impotente Ió.
-Não, ele vem com a gente. – Afirmou Ió, sem nem se dar ao trabalho de levantar a mirada.
-Não seja ridícula, garota. As chances de vocês chegarem naquela nave já são baixíssimas sem ter um corpo que carregar. – A fúria começava a substituir a indignação da raposa.
-Você a ouviu. – Apoiou Horn, garganta seca, sem ter certeza de que era aquilo mesmo que queria dizer. Afinal, ela tinha razão, não tinha? Como iriam tirar Marc dali se ele mal conseguia andar? – Marc vem com a gente. – Pôde ver como sua mãe fazia uma expressão de “é isso aí” que poderia parecer cômica em uma ocasião menos tensa.
-Ninguém mandou atirar nele. – Completou ela.
-Ah, sim, meu senso comum mandou. Mas acho que vocês não entenderiam, não parecem ter nenhum! – Bramou a vulpina, antes de uma pausa. Novo suspiro, nova expressão de derrota. Parecia fazer tempo que ela não se sentia derrotada tantas vezes seguidas em um único dia: seu semblante aparentava ganhar vários anos a cada suspiro. – Muito bem. Só temos uma forma de passar, e é atuando. Nós aqui dentro não temos armas de longa distância, então temos que ser rápidos o bastante para chegar até a nave antes que os meus queridos imbecis aqui fora chamem reforços. Tudo seria mais fácil se tivéssemos um homem pra carregar o peso morto. E você, franguinho, não ofenda aos homens do mundo, porque tu e teu peso-pluma não contam.
-Eu consigo carregar ele. – Se impôs Horn, buscando o apoio de Ió e sua mãe, mas tudo o que conseguiu foi um sorriso amarelo de sua progenitora. – Ah, qual é! Eu jogava basquete lá na Califórnia! E a Ió vai me ajudar… Ió, espera aí! – Ió já havia passado o braço de Marc ao redor de seu pescoço e o levantava custosamente. Horn se apressou em ajuda-la, amparando seu companheiro ensanguentado.
-Então parece que o papel principal sobrou pra senhora… Qual era o teu nome mesmo? – perguntou, apontando para a mãe de Horn.
-Marilyn. – Respondeu ela, com um sorriso abertíssimo. – Marilyn Mon…
-Mãe! Você não se chama assim, para com isso! – Berrou Horn do outro lado da sala, indignado com a piada.
-Sem-graça, você! Agora eu me chamo Marilyn Monroe sim, senhorito. – Insistiu “Marilyn”, piscando para a senhora Thompson. – Nos explique teu plano. Acho que não vai demorar muito até descobrirem que a explosão foi aqui.
-É, eles já devem saber. Se tivermos sorte, teus amigos lá fora são ariscos o suficiente para nos dar uns quantos minutos a mais, distraindo a segurança lá encima. Pra fazer os quatro gatos pingados lá fora deixarem suas armas no chão, você vai ter que me usar de refém. Vamos, pegue meu pescoço. – Disse ela, chamando Marilyn para si.
-Como? Assim? – A coiote, mais hábil do que Horn jamais pudesse imaginar, a pegou em uma perfeita chave de braço, a deixando tal qual um escudo a sua frente, a pistola apontada à orelha branca da raposa.
-Cof… Não tão apertado, droga! Cof… Vou precisar falar!
-Tsc, tudo tem que ser o mais convincente possível. – Contestou ela, sorrindo marotamente para Horn, Ió e Marc. – Agora seja uma boa refém e abra essa porta, por favor.
Horn ajudou Ió a carregar Marc até a porta. Seu companheiro continuava respirando, porém cada vez com mais dificuldade; o sangue brotava de sua ferida tal qual uma pequena fonte, manchando sua larga camiseta amarelada, enquanto murmurava coisas desconexas, beirando a inconsciência. E tossia. Tossia muito. Aquilo estava começando a preocupa-lo de verdade. Precisavam tirá-lo dali rápido e leva-lo ver um médico! Apenas podia torcer para haver algum onde sua mãe de nome novo quisesse levar a maldita nave espacial.
A senhora Thompson destrancou a porta digitando um código numa tela tátil, um segundo antes da senhora Monroe meter um chute cinematográfico na porta e fazê-la escancarar-se, assustando tanto a Horn e Ió quanto aos cientistas que esperavam lá fora. Antes que algum deles pudesse gritar um “o que demônios está acontecendo”, a mãe de Horn empurrou à raposa pelo pescoço para fora de seu escritório com agressividade e berrou para os caras de jaleco, apertando a arma contra a testa de sua refém:
-Todos paradinhos aí! EU DISSE PARADOS! Você aí, a toupeira, nem pense nisso! Vocês vão ficar bem quietinhos se não quiserem que os miolos de sua chefe voem pelos ares! – Ela cuspia enquanto falava mais do que deveria ser possível, atingindo o rosto dos cientistas, todos com suas estupefatas expressões rodeando às duas mulheres, apontando para elas suas pistolas mas sem ter certeza do quê deveriam fazer. Notava-se que, depois de tudo, não passavam de meia dúzia de doutores empunhando armas de fogo.
A exceção à regra, porém, era o tal Hopkins. Emulando um policial com seus joelhos flexionados, ambas as mãos apertando com firmeza sua pistola e seu olhar de séria tensão, ele deu um passo afrente para desespero de seus companheiros.
-Fique tranquila, senhora Thompson. – Disse ele, com voz firme. – Não vou deixar eles passarem daqui. Você vai ficar bem.
-Hopkins, seu idiota! – Gritou a senhora Thompson, conseguindo cuspir ainda mais que sua opressora. – Você quer que eu morra, por um acaso? – A expressão de desconcerto de Hopkins foi impagável.
-Mas…
-Pense um pouco, meu rapaz. – Apoiou a mãe de Horn. – Ouça a voz da experiência de tua chefe, abaixe a arma e deixe-nos passar. Vocês todos, façam o mesmo. Não queremos machucar ninguém, apenas sair daqui.
-Abaixem essas armas, seus malditos! – Agonizou ela, batendo o pé. – Amanda, Zuko, Matt, Antonine, Foster! E você, Hopkins, seu energúmeno insubordinado! Eu vou ficar bem, mas só se vocês pararem de apontar me apontar com essas coisas!
O sentido comum, unido aos berros assustadores da raposa albina pareceram esclarecer a mente dos cientistas, os quais começavam a, lentamente, abaixar suas armas e dar um passo ao lado, deixando o corredor livre. Menos Hopkins, quem insistia em apontar sua arma à pseudo-Marilyn Monroe e sua refém.
-Como vou saber que não estão querendo sequestra-la?
-Hopkins… – Começou a senhora Thompson, mas seu subordinado insistiu:
-Não! Eu falo sério! Vou acompanha-los até onde querem ir, só pra ter certeza de que a devolverão. – Hopkins não respirava, bufava pela tensão e seus quilos a mais, mas parecia firme em sua decisão. A senhora Thompson ficou sem palavras.
-Nós não vamos sequestra-la, não é isso que viemos buscar, rapaz. – Disparou a terrorista de primeira viagem – Mas não temos tempo pra esta discussão. Você pode vir com a gente, mas só você.
-Certo. – Concordou Hopkins, visivelmente mais aliviado enquanto se dirigia a seus companheiros. – Corram para o interfone mais próximo e peçam para comunicar pelos autofalantes para ninguém interferir. Os seguranças externos. E confirmem que os idiotas das câmeras de segurança sabem o que está acontecendo aqui fora e não estão só aproveitando o show lá fora.
-Mas Hopkins, você… – começou a falar o que devia ser Zuko, um lobo cujos óculos estavam excessivamente tortos.
-Eu sei o que estou fazendo, ok? Vão logo, precisamos de reforços aqui!
E eles foram, correram na mesma direção em que Horn, Ió e Marc haviam sido trazidos até entrarem em uma nova porta deslizante. O imenso corredor agora pertencia a eles, silencioso e desértico, com aquela privilegiada visão da nave espacial, rodeada por todos os andares daquela estranha estrutura. Era possível ver como outros cientistas em outros andares corriam possivelmente ainda alertados pelo ataque.
-Vamos logo. Se formos rodeados por soldados não iremos muito longe. – Disse Marilyn, simulando uma voz sexy e glamorosa que fez o estômago de Horn se revirar. – Você aí, rapaz, vá na frente.
-E correr o risco de ser disparado nas costas? Não, obrigado.
-Se preferir, atiro em ti aqui mesmo, que tal? – Disse ela, apontando sua pistola para Hopkins. – Não nos faça perder tempo, sim? – A águia engoliu em seco, na dúvida se deveria ou não apontar-lhe também com a sua arma. Por via das dúvidas, preferiu obedecer.
-Tudo bem, posso leva-los até um compartimento de veículos onde vocês podem pegar um jipe e…
-Leve-os até um elevador, Hopkins. – Interrompeu-o sua superior, convincentemente fingindo não conseguir respirar. – Eles querem entrar na nave…
-Quê?!
-Menos ficar surpreso e mais mostrar onde fica o elevador, “rapazênho”. – A mãe de Horn gesticulava com certo desdém com sua pistola na direção de Hopkins. O jovem águia franziu o cenho e apontou para a direção contrária que seus companheiros haviam corrido, começando a andar com passos lentos e rítmicos. Marilyn, porém, chegou até suas costas e o empurrou com a ponta da pistola para que fosse mais rápido. Ele pareceu entender a mensagem.
Horn e Ió seguiam os três o mais perto que podiam, carregando a Marc com o máximo cuidado possível. O coiote, embora ainda preocupado com todo o problema em que estavam metidos, não deixava de dedicar olhadelas furtivas à Ió. Seu silêncio o incomodava amargamente. Devia haver algo errado com ela, nunca a vira com uma expressão tão séria.
-Ió, o que…? – Começou a perguntar ele, mas uma intensa voz surgiu do nada, pegando-os de surpresa, ecoando pelo corredor vazio.
-Parece que conseguiram dar o aviso pelo interfone. – Comentou Hopkins, identificando a voz feminina como sendo a da responsável pela megafonia. – Ninguém vai atrapalhá-los, seja lá o que planejam. – De repente ele parou e se dirigiu à sacada que dava para a nave alienígena, delimitada por um corrimão de um metro e meio. Passou o indicador no que parecia ser um interruptor e olhou para baixo. Em um par de segundos, o que aparentava ser um tubo transparente, grande o suficiente para se passar por um elevador, parou em sua frente. Ele então puxou o corrimão a modo de portinhola, permitindo a passagem e fez um sinal com a cabeça para que entrassem.
-Certeza que isso não vai cair, rapaz? – Perguntou Marilyn, após assoviar, impressionada. – Parece um pote de maionese gigante.
-É tecnologia que encontramos na nave, pare de reclamar e entre de uma vez! – Queixou-se a senhora Thompson, tentando puxar a coiote.
-Mais respeito com quem tem a arma aqui, velhota. – Contestou ela, esfregando a ponta da pistola na cabeleira da raposa, arrancando uma careta de dor dela e mil e uma ameaças de morte enquanto entravam no “pote de maionese ambulante”.
Uma vez lá dentro, Hopkins anunciou em voz alta que queriam ir ao “nível X”. Uma nova voz sem dono os envolveu, desta vez mais suave, pedindo o código de acesso. O águia olhou para sua superior, quem deixou escapar um profundo suspiro antes de gritar uma larga sequencia de caracteres que Horn nem ao menos sonhou em memorizar. Imediatamente começaram a descender em alta velocidade, sempre encarando à magnífica nave espacial.
Permaneceram em silêncio todo o descenso, com exceção de Marlyin, quem insistia em cantarolar uma musiquinha. Havia um marcador que indicava em quê nível se encontravam. Os números iam caindo a medida que eles desciam. Quando o painel chegou no 1, a escuridão os envolveu por um instante e foi logo substituída por uma iluminação púrpura do próprio elevador que chegava a ser soturna. O mostrador agora indicava letras ao invés de números e onde antes podiam ver a nave espacial, borrões que pareciam ser portas limitavam sua visão. A, B, C, D… Percorreram quase todo o alfabeto até chegarem no X. A porta cinzenta se estabilizou na frente deles e se abriu automaticamente, revelando um corredor cujas luzes se acenderam custosamente, piscando várias vezes até se estabilizarem.
-Só de estar aqui eu já sinto calafrios… – Murmurou Hopkins, o cenho mais franzido que nunca.
-E isso? – Horn não pôde deixar de perguntar. Lhe parecia estranho que, mesmo sendo membro da equipe e um subordinado tão próximo da senhora Thompson, ele não tivesse acesso à nave.
-Ele é um maricas, só isso. – Espetou a raposa, sem demora. – vamos, a entrada é no fim do corredor. – Horn e Ió começaram a tirar Marc do elevador, enquanto Marilyn empurrava a Hopkins atrás deles.
-JÁ CHEGA! – Berrou Hopkins. A senhora Thompson lhe fitou, irada, e a mãe de Horn lhe dedicou um cascudo na nuca, não muito forte.
-Mais respeito com os mais velhos, rapaz! – disse ela, em seu tom de voz brincalhão.
O águia, porém, não estava para brincadeiras, ao receber o soco da coiote, girou seu corpo com brutalidade, prensando o braço da mulher com o seu, deferindo-lhe um soco no rosto que a fez largar sua refém de mentira e cair contra a parede do elevador. Horn abriu ambos os olhos enfurecidamente e pulou encima do águia, deixando seu pulso cair no rosto do cientista de jaleco. Ele, porém, se manteve em pé e retornou o golpe com um chute no peito de Horn, conseguindo afastá-lo o suficiente para apontar sua arma à Horn. O coiote, porém, esperava por isso e, sem pensar nas consequências, abraçou o tronco de Hopkins e o estancou contra a parede transparente. Horn ouviu como a arma explodiu encima de si; seu ouvido começou a apitar, sua cabeça a doer, e mal pode evitar o par de cotoveladas nas costas que recebe de seu adversário. Afrouxa ligeiramente o abraço e deixa que o águia se livrasse de seu abraço e o empurrasse para fora do elevador e apontasse novamente sua arma, desta vez para a cabeça de Marilyn, quem naquele mesmo momento se levantava para tentar devolver o soco.
-PAREM! Parem agora mesmo, ou vou atirar em alguém, juro por Deus! – Impôs-se ele, tossindo um par de vezes pelo golpe de Horn. – Largue essa arma agora, sua desgraçada! Entregue ela para a senhora Thompson já!
A coiote hesitou. Olhou para cima, agachada, para o rosto da raposa alva. A senhora Thompson devolvia o olhar com frialdade, acariciando o pescoço como se sentindo aliviada. Finalmente, sem imutar sua expressão séria manchada com o sangue que lhe escorria do focinho, estendeu sua pistola à sua antiga refém, a qual aceitou a arma de bom grado.
-Obrigada, Hopkins. Finalmente você fez algo direito. – Murmurou ela.
-O que vamos fazer com eles, senhora? – Perguntou ele, antes de chutar Marilyn contra a parede do elevador. – Acho que deveríamos matá-los. São pessoas demais para…
Um disparo. O segundo é seguido de um terceiro, e um quarto finaliza a sequência. A cada projétil que penetra seu objetivo, o corpo de Hopkins recebe um solavanco, nos dois últimos amparado pela parede, aquela antes transparente, agora pintada de um intenso rubro a medida que o corpo do cientista de jaleco branco escorregava por ela, olhando perplexo para sua superior. Ele até tentou soltar um “Por quê?”, mas engasgou. Tentou também levantar sua própria arma em direção da traidora, mas a mesma foi mais rápida e obliterou seu subordinado com um ultimo disparo no peito.
-Acho que, a partir de hoje, você saberá manter seu bico bem fechado, não é, estúpido moleque? – Quase cantarolou ela, se agachando ao lado do corpo sem vida de Hopkins para tirar a arma de sua pata.
Horn queria sentir-se aliviado, mas não conseguiu. Ainda estava em choque pelo que acabava de ver. Caiu de joelhos, tentando controlar uma tremedeira que subitamente o atacou pela tensão, observando como sua mãe se levantava ao lado da raposa. Esta, sem aviso prévio, realizou um arco com seu punho branco como um relâmpago e golpeou o rosto da mãe de Horn, fazendo-a recuar um passo.
-Isso é por ter me chamado de velha, sua vadia. – E apontou ambas as pistolas à Marilyn, Horn, Ió e Marc. – Quem dá as cartas agora sou eu, cykas!
Category Story / All
Species Unspecified / Any
Size 120 x 120px
File Size 23.1 kB
FA+

Comments