Capítulo 6 – O Verso do Inverso Reverso
Cinco minutos depois, Horn já não chorava ao ombro de sua mãe. Claro, seus olhos ainda estavam avermelhados e fungava dissimuladamente de vez em quando, mas se sentia alguns quilos mais leve. Por isso mesmo não contestou quando sua mãe pediu novamente para lhe dar a pistola. Hesitou um pouco, mas a entregou ao punho decidido de sua mãe. Esta, imediatamente a apontou à raposa branca que se arrastava lentamente pelo chão acinzentado.
-A senhora vai esperar quietinha aí. – Soltou ela.
-Senhora… Olha quem está falando, velhota! – Contestou a raposa, rabugenta, se levantando. – Quem é você?
-Ei, ei! Olá? Quem é que está com a arma aqui? – Debochou, levantando um pouco a arma de fogo e sacudindo-a no ar. Horn odiava quando fazia isso na frente de estranhos. – É você quem vai dizer quem é.
-Ela disse que é uma agente da KGB, mãe. – Disse Horn, engolindo a vergonha que o pegou de surpresa. – Ela está infiltrada por aqui e quis nos interrogar…
-É, essa parte eu meio que ouvi. Quando ouvi o disparo enquanto passava por aqui pela ventilação, vim correndo. Bem, me arrastando na verdade. Aquilo é minúsculo! – E apontou para o buraco que se formara no teto, onde antes provavelmente havia um pedaço de tubulação. – Por certo, desculpa o estrago. Mas, você sabe, precisava salvar esses três.
-Tsc, é dinheiro do governo americano que vão gastar para reformar, estou me lixando. – Respondeu a senhora Thompson. Parecia calma demais para o gosto de Horn. O coiote a fitou por um instante, tentando descobrir o que tramava, mas foi interrompido por Ió.
-Hornildo! Vem cá! – Gritou ela. Estava ajoelhada ao lado de Marc, cujo gemidos haviam cessado. Voltou a se alarmar novamente, esperando o pior. Dedicou um último olhar à mulher e foi socorrer seus companheiros.
Marc não estava morto, para seu alívio. Ainda mantinha um sensível ritmo respiratório. Cada vez que expirava, seu rosto se dobrava numa careta de dor e um pouco mais de sangue borbulhava para fora do buraco da bala. Uma poça se formava ao seu lado. O contraste entre o escurecido vermelho e o prateado do solo lhe chocou, mas sem entender por quê. Sem entender, pra variar.
-Ele não vai aguentar ficar aqui, Hornildo. – Seu olhar pedia, implorava por ajuda. – Precisamos tirá-lo daqui. Levá-lo pra ver o doutor Schmitz lá fora…
-Ió… – Queria dizer que o doutor Schmitz, o hippie que conseguia curar os resfriados e as ressacas do grupo, nunca tinha feito uma faculdade de medicina e provavelmente não saberia como extrair uma bala. Mas preferiu não. – Tem razão, precisamos tirá-lo daqui o quanto antes… Mãe!
-Agora não, querido, mamãe está interrogando. Hehee, sempre quis dizer algo assim. – A boca de Horn caiu de incredulidade. Aquela era sua mãe desde que seu pai morrera e ainda não se havia acostumado. Talvez nunca se acostumasse.
-Mãe, é sério! O Marc vai morrer! – Horn levantou a voz, num tom suplicante.
-Com certeza devem ter ouvido a explosão no andar de cima. Deve ter tremido alguma coisa, por mais insonorizada que seja minha sala. Esse garoto tampouco parece que vai aguentar muito. – Começou a falar, de repente, a senhora Thompson, a arrogância voltando a enfeitar suas palavras. Tirou seus óculos e fez uma pausa, analisando o que parecia ser uma rachadura em suas lentes. – Sejamos francos, não me interessa nada que vocês sejam capturados e interrogados por alguém que eu não possa controlar, como um FBI ou uma CIA. Eu ia matá-los depois que me dissessem o que eu precisava saber do mesmo jeito. Então vamos fazer um trato.
-Ei, acho que as posições se inverteram, não? Você agora vai nos ajudar querendo ou não. – Horn se sentiu um gênio cortando a raposa, lembrando-se do que ela dissera antes, quando eram eles que estavam sob a mira de armas.
-Tu ainda precisa nascer e renascer cinquenta vezes pra poder me pressionar com essa mente limitada, moleque. – Disse a senhora Thompson, sua língua ainda afiada o suficiente para Horn voltar a ter vergonha de ter aberto a boca com tanta prepotência. – Vocês ainda estão prestes a morrer. Não sei quais eram teus planos, mulher, mas aposto que não incluía ter que lidar com um peso morto.
-Eu posso levá-los de volta à superfície, espertinha. – Respondeu sua mãe às provocações. Estudei por meses os planos destes tubos de ventilação. Além do que, tenho outros companheiros que estão cuidando do nosso plano original. Talvez ter chamado a atenção aqui tenha até sido bom para eles.
-Não sei mesmo como vocês conseguiram uma brecha na segurança da ventilação, mas com essa explosão já devem ter acionado as escotilhas que bloqueiam a entrada e saída de ar. Você sabe, em caso de tentativa de contaminação. Então vocês precisam de uma rota alternativa. Você não deve conhecer nenhuma, claro. Afinal, elas não existem. Terá que atravessar a base inteira até a superfície, passar desapercebida no meio de centenas de cientistas e conseguir se livrar da segurança exterior. – A sarcástica dramatização que a senhora Thompson dava à sua explicação estava dando nos nervos de todos. Ou isso foi o que pensou Horn, que já estava se irritando por todos. – É, vocês estão em ÓTIMA situação. Pra quê iriam querer negociar comigo? Uma agente russa que conseguiu se infiltrar no maior segredo norte-americano e que deseja o mesmo que vocês? Ora, vamos! Vocês não tem escolha!
-É, você tem razão.
-MÃE, NÃO!
-Vamos ouvir o que ela tem a dizer, Hornildo. Ou que outra opção a gente tem?
Hornildo permaneceu em silêncio. Queria seguir protestando, mas não consegui encontrar nenhum argumento que lhe parecesse suficientemente convincente. Tinha um mau pressentimento. Suspeitou por um instante que fosse causado por sua bexiga perigosamente relaxada pelas sucessivas situações de pânico, mas não, era puro mau pressentimento.
-Eu quero saber quem os enviou. E o que querem aqui. Não creio que apenas sabotar, tão poucos não conseguiriam fazer tanto estrago assim num laboratório tão imenso e tão bem protegido. E, se vocês conseguiram até uma brecha na segurança interna, é porque conhecem a magnitude do projeto e sabem de muito mais coisas que a simples estrutura dos condutos de ar condicionado. Foi um grupo terrorista extragovernamental russo, sem saber que a própria KGB já está infiltrada? Ou uma facção do próprio governo, cansados das muitas promessas e poucos resultados neste projeto que suga bilhões dos cofres públicos?
“O cérebro dessa mulher trabalha a mil!”, pensou Horn, surpreso com a quantidade de possibilidades que ele nem havia chegado a imaginar. Sua mãe abriu um de seus famosos sorrisos carinhosos e respondeu, com aquele tom de voz paciente que usava com ele quando queria explicar algo muito difícil de entender.
-Não fazemos parte de nenhum governo. Eu não sei muito sobre nossos superiores, nunca perguntei muito nem quis saber muito. Seus motivos sempre me bastaram. Mas meu chefe talvez possa te explicar tudo melhor. Quer que eu te leve até ele? Ele deve estar quase chegando no objetivo. Vai me esperar lá durante cinco minutos antes de executar o plano. Então devemos ter uns oito ou nove minutos pra chegar lá.
-Lá onde? Que plano é este? – Indagou a raposa branca, impaciente, sem intimidar-se com a pistola que lhe era apontada.
-Lá na cabine de comando da nave. Vamos tirá-la daqui em dez minutos.
Cinco minutos depois, Horn já não chorava ao ombro de sua mãe. Claro, seus olhos ainda estavam avermelhados e fungava dissimuladamente de vez em quando, mas se sentia alguns quilos mais leve. Por isso mesmo não contestou quando sua mãe pediu novamente para lhe dar a pistola. Hesitou um pouco, mas a entregou ao punho decidido de sua mãe. Esta, imediatamente a apontou à raposa branca que se arrastava lentamente pelo chão acinzentado.
-A senhora vai esperar quietinha aí. – Soltou ela.
-Senhora… Olha quem está falando, velhota! – Contestou a raposa, rabugenta, se levantando. – Quem é você?
-Ei, ei! Olá? Quem é que está com a arma aqui? – Debochou, levantando um pouco a arma de fogo e sacudindo-a no ar. Horn odiava quando fazia isso na frente de estranhos. – É você quem vai dizer quem é.
-Ela disse que é uma agente da KGB, mãe. – Disse Horn, engolindo a vergonha que o pegou de surpresa. – Ela está infiltrada por aqui e quis nos interrogar…
-É, essa parte eu meio que ouvi. Quando ouvi o disparo enquanto passava por aqui pela ventilação, vim correndo. Bem, me arrastando na verdade. Aquilo é minúsculo! – E apontou para o buraco que se formara no teto, onde antes provavelmente havia um pedaço de tubulação. – Por certo, desculpa o estrago. Mas, você sabe, precisava salvar esses três.
-Tsc, é dinheiro do governo americano que vão gastar para reformar, estou me lixando. – Respondeu a senhora Thompson. Parecia calma demais para o gosto de Horn. O coiote a fitou por um instante, tentando descobrir o que tramava, mas foi interrompido por Ió.
-Hornildo! Vem cá! – Gritou ela. Estava ajoelhada ao lado de Marc, cujo gemidos haviam cessado. Voltou a se alarmar novamente, esperando o pior. Dedicou um último olhar à mulher e foi socorrer seus companheiros.
Marc não estava morto, para seu alívio. Ainda mantinha um sensível ritmo respiratório. Cada vez que expirava, seu rosto se dobrava numa careta de dor e um pouco mais de sangue borbulhava para fora do buraco da bala. Uma poça se formava ao seu lado. O contraste entre o escurecido vermelho e o prateado do solo lhe chocou, mas sem entender por quê. Sem entender, pra variar.
-Ele não vai aguentar ficar aqui, Hornildo. – Seu olhar pedia, implorava por ajuda. – Precisamos tirá-lo daqui. Levá-lo pra ver o doutor Schmitz lá fora…
-Ió… – Queria dizer que o doutor Schmitz, o hippie que conseguia curar os resfriados e as ressacas do grupo, nunca tinha feito uma faculdade de medicina e provavelmente não saberia como extrair uma bala. Mas preferiu não. – Tem razão, precisamos tirá-lo daqui o quanto antes… Mãe!
-Agora não, querido, mamãe está interrogando. Hehee, sempre quis dizer algo assim. – A boca de Horn caiu de incredulidade. Aquela era sua mãe desde que seu pai morrera e ainda não se havia acostumado. Talvez nunca se acostumasse.
-Mãe, é sério! O Marc vai morrer! – Horn levantou a voz, num tom suplicante.
-Com certeza devem ter ouvido a explosão no andar de cima. Deve ter tremido alguma coisa, por mais insonorizada que seja minha sala. Esse garoto tampouco parece que vai aguentar muito. – Começou a falar, de repente, a senhora Thompson, a arrogância voltando a enfeitar suas palavras. Tirou seus óculos e fez uma pausa, analisando o que parecia ser uma rachadura em suas lentes. – Sejamos francos, não me interessa nada que vocês sejam capturados e interrogados por alguém que eu não possa controlar, como um FBI ou uma CIA. Eu ia matá-los depois que me dissessem o que eu precisava saber do mesmo jeito. Então vamos fazer um trato.
-Ei, acho que as posições se inverteram, não? Você agora vai nos ajudar querendo ou não. – Horn se sentiu um gênio cortando a raposa, lembrando-se do que ela dissera antes, quando eram eles que estavam sob a mira de armas.
-Tu ainda precisa nascer e renascer cinquenta vezes pra poder me pressionar com essa mente limitada, moleque. – Disse a senhora Thompson, sua língua ainda afiada o suficiente para Horn voltar a ter vergonha de ter aberto a boca com tanta prepotência. – Vocês ainda estão prestes a morrer. Não sei quais eram teus planos, mulher, mas aposto que não incluía ter que lidar com um peso morto.
-Eu posso levá-los de volta à superfície, espertinha. – Respondeu sua mãe às provocações. Estudei por meses os planos destes tubos de ventilação. Além do que, tenho outros companheiros que estão cuidando do nosso plano original. Talvez ter chamado a atenção aqui tenha até sido bom para eles.
-Não sei mesmo como vocês conseguiram uma brecha na segurança da ventilação, mas com essa explosão já devem ter acionado as escotilhas que bloqueiam a entrada e saída de ar. Você sabe, em caso de tentativa de contaminação. Então vocês precisam de uma rota alternativa. Você não deve conhecer nenhuma, claro. Afinal, elas não existem. Terá que atravessar a base inteira até a superfície, passar desapercebida no meio de centenas de cientistas e conseguir se livrar da segurança exterior. – A sarcástica dramatização que a senhora Thompson dava à sua explicação estava dando nos nervos de todos. Ou isso foi o que pensou Horn, que já estava se irritando por todos. – É, vocês estão em ÓTIMA situação. Pra quê iriam querer negociar comigo? Uma agente russa que conseguiu se infiltrar no maior segredo norte-americano e que deseja o mesmo que vocês? Ora, vamos! Vocês não tem escolha!
-É, você tem razão.
-MÃE, NÃO!
-Vamos ouvir o que ela tem a dizer, Hornildo. Ou que outra opção a gente tem?
Hornildo permaneceu em silêncio. Queria seguir protestando, mas não consegui encontrar nenhum argumento que lhe parecesse suficientemente convincente. Tinha um mau pressentimento. Suspeitou por um instante que fosse causado por sua bexiga perigosamente relaxada pelas sucessivas situações de pânico, mas não, era puro mau pressentimento.
-Eu quero saber quem os enviou. E o que querem aqui. Não creio que apenas sabotar, tão poucos não conseguiriam fazer tanto estrago assim num laboratório tão imenso e tão bem protegido. E, se vocês conseguiram até uma brecha na segurança interna, é porque conhecem a magnitude do projeto e sabem de muito mais coisas que a simples estrutura dos condutos de ar condicionado. Foi um grupo terrorista extragovernamental russo, sem saber que a própria KGB já está infiltrada? Ou uma facção do próprio governo, cansados das muitas promessas e poucos resultados neste projeto que suga bilhões dos cofres públicos?
“O cérebro dessa mulher trabalha a mil!”, pensou Horn, surpreso com a quantidade de possibilidades que ele nem havia chegado a imaginar. Sua mãe abriu um de seus famosos sorrisos carinhosos e respondeu, com aquele tom de voz paciente que usava com ele quando queria explicar algo muito difícil de entender.
-Não fazemos parte de nenhum governo. Eu não sei muito sobre nossos superiores, nunca perguntei muito nem quis saber muito. Seus motivos sempre me bastaram. Mas meu chefe talvez possa te explicar tudo melhor. Quer que eu te leve até ele? Ele deve estar quase chegando no objetivo. Vai me esperar lá durante cinco minutos antes de executar o plano. Então devemos ter uns oito ou nove minutos pra chegar lá.
-Lá onde? Que plano é este? – Indagou a raposa branca, impaciente, sem intimidar-se com a pistola que lhe era apontada.
-Lá na cabine de comando da nave. Vamos tirá-la daqui em dez minutos.
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