Este é um experimento pessoal. Trata-se de uma série de relatos (de extensão variada, separados ou não por partes) que girarão ao redor de um Internato. Comentários sao meu combustível, tenham isso em mente.
Brasão - I
-EU MANDEI CALAR ESSA BOCA, MOLEQUE! – Berrou o senhor Campbell, deixando que várias gotículas da saliva que habitava sua mal-cheirosa boca voassem livremente, algumas (muitas) pousando docilmente no rosto de Scott. A boca do garoto acabava de entreabrir-se para soltar alguma explicação sobre a besteira que havia feito. Mas o senhor Campbell não é pago para ouvir desculpas, nem gosta de recebê-las. Não com palavras. Os miúdos olhos do corpulento javali não queimavam em ira, mas sim em um auto-controle que talvez resultasse ainda mais intimidador. Scott ouviu como deixava escapar uma grande baforada de ar por suas sonoras narinas antes de voltar a falar, agora mais tranqüilamente, mas mantendo seu poder quase militar. – Quero que me explique, com toda a sinceridade que teu espírito de pivete conseguir reunir, o que demônios aconteceu aqui.
Com as orelhas baixas, desviou o olhar da maciça figura do senhor Campbell e fitou com o canto do olho a seu melhor amigo, Roland, o qual ainda pressionava com a pata um corte sobre sua têmpora, tentando sem sucesso parar um superficial porém abundante sangramento. Roland parecia aterrorizado, olhando fixamente para o chão. Ao seu lado, uma aura de pura fúria e ódio rodeando-o, estava o motivo de daqueles gritos, da bronca do senhor Campbell, de sua baba voar em sua direção: Oreo. Não sabia se esse era o seu verdadeiro nome, mas era assim que todos o chamavam. Oreo o labrador de uma pelagem estranhamente negra e branca, que por sua vez não fazia nada para evitar o sangramento de seu focinho.
Talvez por ver que Scott hesitava, Oreo decidiu responder por ele:
-Estes idiotas me atacaram! Vieram do nada e me atacaram... Senhor!
“Você mereceu, desgraçado.”, pensou Scott, mas resolveu não dizer nada. “E é melhor calar essa boca se não quiser repetir a dose”.
Oreo, porém, não ganhou nenhuma resposta do senhor Campbell, aparte de um olhar severo e um grunhido. Do nada, dedicou uma risada arranhada aos três e os deu as costas.
-Quero os três no pátio interno esta noite, meia hora antes da hora de recolher. Vou ensiná-los duas lições hoje, e uma delas é que ninguém briga em meu colégio. – E, com essas palavras, saiu do quarto, sem fechar a porta ao passar.
Reina o silêncio, então.
-Espero que estejam contentes! – Para o pesar de Scott, esse reinado não dura e Oreo começa a reclamar. – Vai saber que tipos de tortura esse velho vai nos fazer hoje!
-Como se a culpa não fosse sua! – Disse Scott, bruscamente, tentando impor sua voz sobre a de Oreo. – Você tem a boca grande demais, Oreo. Deveria saber que alguém algum dia a faria calar.
-RÁ! – e passou o antebraço em seu focinho, limpando o sangue. Inutilmente, já que o rio continuava a fluir. – Deixa eu lembrar da próxima vez então de provocar alguém capaz disso. – E dedicou um olhar de desprezo a Roland, o qual continuava a olhar para o chão, com o rosto choroso.
-Roland é meu melhor amigo, você deveria ter ISSO em conta antes de...
-Fiquem quietos de uma vez! – Disse Roland, num grito contido. – Se ele voltar aqui, o castigo será muito pior. Além do que, Scott... – A voz dele falhou. Se esforçava para segurar o choro. – Não importa. Não vale a pena.
-Isso, Scott. Não vale a pena. – Disse Oreo, com uma discreta fagulha de sarcasmo na voz. E, sem olhar a nenhum dos dois, seguiu os passos do senhor Campbell, saindo daquela apertada salinha, fungando, sem conseguir evitar deixar uma trilha de sangue ao seu passo.
-Obrigado pela ajuda. Eu perdi a cabeça, não deveria...
-Ei, esse idiota faz qualquer um perder a cabeça. Mesmo assim, não faz o teu tipo ficar nervoso. Muito menos dar um cruzado tão certeiro. – Disse, indicando com um movimento de cabeça as gotículas de sangue pelo chão. Sem dúvidas eles e suas mães seriam amaldiçoados eternamente pela faxineira. – O que ele te disse? Ou te fez? E o que vocês estavam fazendo nesta salinha? Foi sorte eu estar passando por aqui...
-Eu precisava falar com ele a sós. Mas a coisa se descontrolou um pouco. – E lhe dedicou um olhar sem graça. Ainda pressionava o corte na têmpora e, antes que Scott pudesse perguntar algo mais, disse – Acho melhor eu ir cuidar disto aqui. E você deveria ver esse lábio, por se acaso.
Aquele sorriso não lhe convenceu, nem a evasiva. Assim como não era típico de Roland deixar-se levar pela raiva, tampouco era contar mentiras ou simplesmente omitir a verdade. Mas resolveu deixar para lá, por enquanto. Sorriu e, sentindo pela primeira vez o gosto metálico onipresente em sua boca, o acompanhou até o dormitório. O pôr-do-sol já havia passado e faltava apenas um par de horas para o toque de recolher. E o pensamento sobre o castigo que ganhariam ocupou toda a preocupação de Scott. Nada bom seria.
Nada bom mesmo.
ǾǾǾǾ
A lua era cheia. Scott adorava luas cheias. Por seu sangue lupino, provavelmente. Mas sua vontade ao vê-la não é o de urrar, mas sim deitar-se à grama e observá-la. Observar a sua luz quase divina entorpecida pela névoa abraçando parcialmente o cenário noturno. Por isso, não estava lá tão preocupado quando saiu para o pátio interior com seu melhor amigo. Sentado sobre a fonte no centro do pátio estava o senhor Campbell.
O Javali, diretor daquele conceituado e tradicional internato, pareceu não notar a presença dos alunos por uns quantos segundos, já que estava ocupado observando a lua. Scott sentiu vontade de imitar o diretor, mas se segurou.
-E o senhor Willians? – Perguntou ele, de repente. Por um segundo Scott não soube de quem ele estava falando.
-Estou aqui, senhor diretor, estou aqui. – Disse Oreo, saindo de um dos escuros corredores internos. Ora, ora, então ele tem um nome de verdade.
-Perfeito. Não quero perder tempo dando um discurso que vocês ignorariam e não respeitariam. Vocês sabem o que fizeram e não duvido que tenham tido seus motivos. Mas tenho uma novidade para vocês: As regras deste internato, muitas das quais eu mesmo me dei ao trabalho de escrever, estão aí para serem respeitadas. Vocês estão cansados de saber que conflitos pessoais devem ser levados a algum professor. Agora vocês estão sob qualquer justiça ou moral para cumprir como bons colegas que quero que sejam, o castigo que eu achar mais apropriado.
“Ainda bem que ele disse que não ia dar um discurso.” Pensou Scott, rindo para si mesmo. Era incrível a calma que a lua cheia lhe estava dando aquela noite.
-Se teus olhos já se acostumaram à escuridão, poderão ver aqui no chão três pás. Pergunta rápida, senhor Kraft, pra quê servem pás? – O pobre Roland, pego de surpresa, limitou-se a olhá-lo com expressão intrigada. – Realmente, agilidade não é teu forte. - Se levantou da fonte de pedra e apontou para o chão de terra. – Quero que vocês cavem. Cavem e cavem até eu dizer chega. Não se importem com onde jogam a terra, o objetivo é chegar o mais fundo possível o mais cedo possível. Amanhã de manhã eu voltarei e verei o resultado. Se não for suficiente, vocês voltarão na madrugada seguinte para continuar, que tal?
-Mas senhor, estamos no meio da semana, amanhã temos aula e...
-Hmmmm, então considerem-se suspensos até acabarem o que eu mandei.
Scott pousou seu olhar nas pás que descansavam no chão ao lado da fonte de pedra desativada. Ele estava falando sério? Sim, estava. O senhor Campbell sempre fala sério, mesmo quando quer fazer que pareça uma brincadeira de mal gosto. Eram jovens de quinze anos, saudáveis e ativos fisicamente graças ao treinamento quase militar nas aulas de educação física, então não poderia reclamar de um castigo físico como aquele. Mas chegar ao extremo de estragar o pátio interior para apenas castigar alguns alunos lhe pareceu excessivo.
-Enfim, é isso. Espero que se divirtam. E nada de simular uma lesão. – E, com essas palavras estranhas, deixou o pátio interior e os três garotos com seus olhares de perdida estupefação.
Sem dizer nada, Oreo dá de ombros e pega uma das pás e parece analisá-la por um instante, como se procurasse algum botão para ligá-la.
-Isso faz algum sentido para vocês? – Perguntou ele, enquanto que os outros dois empunhavam suas próprias ferramentas. – Quero dizer... Estamos neste internato há dois anos e é a primeira vez que ouço um castigo como este. Sempre temos que copiar mil vezes uma frase enorme ou limpar algum lugar...
-É o que você pensa. – disse Scott, com má vontade. Adoraria poder evitar conversar com aquele garoto. – Ouvi histórias de que alguns alunos do quarto ano foram obrigados a acampar fora dos limites do prédio, lá naquele bosque estranho onde vamos de vez em quando correr em educação física.
-Pff, que tipo de castigo é esse? – Indignado, é o primeiro a cravar sua pá na terra não lá muito rígida – Um par de garrafas de vodca e são as férias que eles pediram a Deus.
-Não sei bem, mas acho que não foi lá tão divertido. Deixaram eles lá por mais de uma semana e, quando voltaram, não conseguiram ficar mais de dois dias. Imploraram para que seus pais os tirassem daqui.
-O que aconteceu com eles, Scott? – Perguntou Roland, intrigado.
-Eu não acredito muito não, mas dizem que foram atacados e perseguidos por várias noites. Não os deixavam sair do bosque para pedir ajuda e, sempre que montavam acampamento, destruíam tudo quando dormiam.
-Quem faria isso? Não tem ninguém vivendo nesta região além de nós. A cidadezinha mais próxima está a trinta quilômetros daqui, passado o rio.
-Não é o que ouvi de um pessoal mais velho, do segundo grau. Dizem que no bosque vive um povo que não são pessoas nem animais. São criaturas selvagens que aterrorizam qualquer um que profane seu território.
-Ah, que típico! Historinhas que o povo mais velho adora contar. – Balançando a cabeça, Oreo continuou a cavar, os outros imitando-o.
-Tampouco acredito, mas... Vocês se lembram que o senhor Campbell disse que nos ensinaria duas lições com isto? E se uma delas for que se não obedecermos as regras do internato, ago terrível nos acontecerá?
-O... O que você quer dizer? – Balbuciou Roland, parando de cavar.
-E se este buraco que estamos cavando for a nossa cova? E se o que ele que é enterra-nos vivos?
-Eu ainda não consigo acreditar que vamos à mesma classe. Quantos anos você tem mesmo? Dez? Fala sério! O senhor Campbell pode ter toda a cara de mafioso que você quiser, mas não seria capaz de tanto. – Resmungou Oreo.
E isso pareceu encerrar o tema. Em silêncio, continuaram cavando por mais umas três horas, com descansos esporádicos. Queriam terminar aquilo naquela mesma madrugada. Scott, com a sensação de que eram observados, se virou diversas vezes para ver se encontrava alguma luz entre as diversas janelas do grandioso prédio que era o internato. Nunca encontrou nada, nem um vulto sequer.
O suor já os invadia, obrigando-os a deixar suas camisetas de lado. O metro e meio de profundidade já havia sido conseguido quando Roland parou bruscamente de cavar e ficou olhando, hipnotizado, para o chão, onde havia cravado sua pá.
-Algo errado, cara? – Perguntou Scott, se aproximando. Como resposta, apenas conseguiu um trêmulo indicio da voz de seu amigo. Trêmulo indicio da voz de seu amigo. – Você encontrou um baú do tesouro, é? – Nunca aquela risada brincalhona viera em tão mal momento. Roland, lentamente, olhou para Scott e apontou para o chão.
-Mas o quê demônios...?
Havia algo ali, camuflado em meio a terra algo úmida e avermelhada. Parecia ser uma superfície plana de madeira. Trocaram um olhar intrigado e se apressaram em continuar a cavar, com os seus próprios dedos, o suficiente para revelar a totalidade de um baú. Um baú de aparência antiga, mas que resplandecia quase divinamente sob a luz do luar com seu revestimento em prata. Um baú enterrado no pátio interno de um internato. De seu internato.
Brasão - I
-EU MANDEI CALAR ESSA BOCA, MOLEQUE! – Berrou o senhor Campbell, deixando que várias gotículas da saliva que habitava sua mal-cheirosa boca voassem livremente, algumas (muitas) pousando docilmente no rosto de Scott. A boca do garoto acabava de entreabrir-se para soltar alguma explicação sobre a besteira que havia feito. Mas o senhor Campbell não é pago para ouvir desculpas, nem gosta de recebê-las. Não com palavras. Os miúdos olhos do corpulento javali não queimavam em ira, mas sim em um auto-controle que talvez resultasse ainda mais intimidador. Scott ouviu como deixava escapar uma grande baforada de ar por suas sonoras narinas antes de voltar a falar, agora mais tranqüilamente, mas mantendo seu poder quase militar. – Quero que me explique, com toda a sinceridade que teu espírito de pivete conseguir reunir, o que demônios aconteceu aqui.
Com as orelhas baixas, desviou o olhar da maciça figura do senhor Campbell e fitou com o canto do olho a seu melhor amigo, Roland, o qual ainda pressionava com a pata um corte sobre sua têmpora, tentando sem sucesso parar um superficial porém abundante sangramento. Roland parecia aterrorizado, olhando fixamente para o chão. Ao seu lado, uma aura de pura fúria e ódio rodeando-o, estava o motivo de daqueles gritos, da bronca do senhor Campbell, de sua baba voar em sua direção: Oreo. Não sabia se esse era o seu verdadeiro nome, mas era assim que todos o chamavam. Oreo o labrador de uma pelagem estranhamente negra e branca, que por sua vez não fazia nada para evitar o sangramento de seu focinho.
Talvez por ver que Scott hesitava, Oreo decidiu responder por ele:
-Estes idiotas me atacaram! Vieram do nada e me atacaram... Senhor!
“Você mereceu, desgraçado.”, pensou Scott, mas resolveu não dizer nada. “E é melhor calar essa boca se não quiser repetir a dose”.
Oreo, porém, não ganhou nenhuma resposta do senhor Campbell, aparte de um olhar severo e um grunhido. Do nada, dedicou uma risada arranhada aos três e os deu as costas.
-Quero os três no pátio interno esta noite, meia hora antes da hora de recolher. Vou ensiná-los duas lições hoje, e uma delas é que ninguém briga em meu colégio. – E, com essas palavras, saiu do quarto, sem fechar a porta ao passar.
Reina o silêncio, então.
-Espero que estejam contentes! – Para o pesar de Scott, esse reinado não dura e Oreo começa a reclamar. – Vai saber que tipos de tortura esse velho vai nos fazer hoje!
-Como se a culpa não fosse sua! – Disse Scott, bruscamente, tentando impor sua voz sobre a de Oreo. – Você tem a boca grande demais, Oreo. Deveria saber que alguém algum dia a faria calar.
-RÁ! – e passou o antebraço em seu focinho, limpando o sangue. Inutilmente, já que o rio continuava a fluir. – Deixa eu lembrar da próxima vez então de provocar alguém capaz disso. – E dedicou um olhar de desprezo a Roland, o qual continuava a olhar para o chão, com o rosto choroso.
-Roland é meu melhor amigo, você deveria ter ISSO em conta antes de...
-Fiquem quietos de uma vez! – Disse Roland, num grito contido. – Se ele voltar aqui, o castigo será muito pior. Além do que, Scott... – A voz dele falhou. Se esforçava para segurar o choro. – Não importa. Não vale a pena.
-Isso, Scott. Não vale a pena. – Disse Oreo, com uma discreta fagulha de sarcasmo na voz. E, sem olhar a nenhum dos dois, seguiu os passos do senhor Campbell, saindo daquela apertada salinha, fungando, sem conseguir evitar deixar uma trilha de sangue ao seu passo.
-Obrigado pela ajuda. Eu perdi a cabeça, não deveria...
-Ei, esse idiota faz qualquer um perder a cabeça. Mesmo assim, não faz o teu tipo ficar nervoso. Muito menos dar um cruzado tão certeiro. – Disse, indicando com um movimento de cabeça as gotículas de sangue pelo chão. Sem dúvidas eles e suas mães seriam amaldiçoados eternamente pela faxineira. – O que ele te disse? Ou te fez? E o que vocês estavam fazendo nesta salinha? Foi sorte eu estar passando por aqui...
-Eu precisava falar com ele a sós. Mas a coisa se descontrolou um pouco. – E lhe dedicou um olhar sem graça. Ainda pressionava o corte na têmpora e, antes que Scott pudesse perguntar algo mais, disse – Acho melhor eu ir cuidar disto aqui. E você deveria ver esse lábio, por se acaso.
Aquele sorriso não lhe convenceu, nem a evasiva. Assim como não era típico de Roland deixar-se levar pela raiva, tampouco era contar mentiras ou simplesmente omitir a verdade. Mas resolveu deixar para lá, por enquanto. Sorriu e, sentindo pela primeira vez o gosto metálico onipresente em sua boca, o acompanhou até o dormitório. O pôr-do-sol já havia passado e faltava apenas um par de horas para o toque de recolher. E o pensamento sobre o castigo que ganhariam ocupou toda a preocupação de Scott. Nada bom seria.
Nada bom mesmo.
ǾǾǾǾ
A lua era cheia. Scott adorava luas cheias. Por seu sangue lupino, provavelmente. Mas sua vontade ao vê-la não é o de urrar, mas sim deitar-se à grama e observá-la. Observar a sua luz quase divina entorpecida pela névoa abraçando parcialmente o cenário noturno. Por isso, não estava lá tão preocupado quando saiu para o pátio interior com seu melhor amigo. Sentado sobre a fonte no centro do pátio estava o senhor Campbell.
O Javali, diretor daquele conceituado e tradicional internato, pareceu não notar a presença dos alunos por uns quantos segundos, já que estava ocupado observando a lua. Scott sentiu vontade de imitar o diretor, mas se segurou.
-E o senhor Willians? – Perguntou ele, de repente. Por um segundo Scott não soube de quem ele estava falando.
-Estou aqui, senhor diretor, estou aqui. – Disse Oreo, saindo de um dos escuros corredores internos. Ora, ora, então ele tem um nome de verdade.
-Perfeito. Não quero perder tempo dando um discurso que vocês ignorariam e não respeitariam. Vocês sabem o que fizeram e não duvido que tenham tido seus motivos. Mas tenho uma novidade para vocês: As regras deste internato, muitas das quais eu mesmo me dei ao trabalho de escrever, estão aí para serem respeitadas. Vocês estão cansados de saber que conflitos pessoais devem ser levados a algum professor. Agora vocês estão sob qualquer justiça ou moral para cumprir como bons colegas que quero que sejam, o castigo que eu achar mais apropriado.
“Ainda bem que ele disse que não ia dar um discurso.” Pensou Scott, rindo para si mesmo. Era incrível a calma que a lua cheia lhe estava dando aquela noite.
-Se teus olhos já se acostumaram à escuridão, poderão ver aqui no chão três pás. Pergunta rápida, senhor Kraft, pra quê servem pás? – O pobre Roland, pego de surpresa, limitou-se a olhá-lo com expressão intrigada. – Realmente, agilidade não é teu forte. - Se levantou da fonte de pedra e apontou para o chão de terra. – Quero que vocês cavem. Cavem e cavem até eu dizer chega. Não se importem com onde jogam a terra, o objetivo é chegar o mais fundo possível o mais cedo possível. Amanhã de manhã eu voltarei e verei o resultado. Se não for suficiente, vocês voltarão na madrugada seguinte para continuar, que tal?
-Mas senhor, estamos no meio da semana, amanhã temos aula e...
-Hmmmm, então considerem-se suspensos até acabarem o que eu mandei.
Scott pousou seu olhar nas pás que descansavam no chão ao lado da fonte de pedra desativada. Ele estava falando sério? Sim, estava. O senhor Campbell sempre fala sério, mesmo quando quer fazer que pareça uma brincadeira de mal gosto. Eram jovens de quinze anos, saudáveis e ativos fisicamente graças ao treinamento quase militar nas aulas de educação física, então não poderia reclamar de um castigo físico como aquele. Mas chegar ao extremo de estragar o pátio interior para apenas castigar alguns alunos lhe pareceu excessivo.
-Enfim, é isso. Espero que se divirtam. E nada de simular uma lesão. – E, com essas palavras estranhas, deixou o pátio interior e os três garotos com seus olhares de perdida estupefação.
Sem dizer nada, Oreo dá de ombros e pega uma das pás e parece analisá-la por um instante, como se procurasse algum botão para ligá-la.
-Isso faz algum sentido para vocês? – Perguntou ele, enquanto que os outros dois empunhavam suas próprias ferramentas. – Quero dizer... Estamos neste internato há dois anos e é a primeira vez que ouço um castigo como este. Sempre temos que copiar mil vezes uma frase enorme ou limpar algum lugar...
-É o que você pensa. – disse Scott, com má vontade. Adoraria poder evitar conversar com aquele garoto. – Ouvi histórias de que alguns alunos do quarto ano foram obrigados a acampar fora dos limites do prédio, lá naquele bosque estranho onde vamos de vez em quando correr em educação física.
-Pff, que tipo de castigo é esse? – Indignado, é o primeiro a cravar sua pá na terra não lá muito rígida – Um par de garrafas de vodca e são as férias que eles pediram a Deus.
-Não sei bem, mas acho que não foi lá tão divertido. Deixaram eles lá por mais de uma semana e, quando voltaram, não conseguiram ficar mais de dois dias. Imploraram para que seus pais os tirassem daqui.
-O que aconteceu com eles, Scott? – Perguntou Roland, intrigado.
-Eu não acredito muito não, mas dizem que foram atacados e perseguidos por várias noites. Não os deixavam sair do bosque para pedir ajuda e, sempre que montavam acampamento, destruíam tudo quando dormiam.
-Quem faria isso? Não tem ninguém vivendo nesta região além de nós. A cidadezinha mais próxima está a trinta quilômetros daqui, passado o rio.
-Não é o que ouvi de um pessoal mais velho, do segundo grau. Dizem que no bosque vive um povo que não são pessoas nem animais. São criaturas selvagens que aterrorizam qualquer um que profane seu território.
-Ah, que típico! Historinhas que o povo mais velho adora contar. – Balançando a cabeça, Oreo continuou a cavar, os outros imitando-o.
-Tampouco acredito, mas... Vocês se lembram que o senhor Campbell disse que nos ensinaria duas lições com isto? E se uma delas for que se não obedecermos as regras do internato, ago terrível nos acontecerá?
-O... O que você quer dizer? – Balbuciou Roland, parando de cavar.
-E se este buraco que estamos cavando for a nossa cova? E se o que ele que é enterra-nos vivos?
-Eu ainda não consigo acreditar que vamos à mesma classe. Quantos anos você tem mesmo? Dez? Fala sério! O senhor Campbell pode ter toda a cara de mafioso que você quiser, mas não seria capaz de tanto. – Resmungou Oreo.
E isso pareceu encerrar o tema. Em silêncio, continuaram cavando por mais umas três horas, com descansos esporádicos. Queriam terminar aquilo naquela mesma madrugada. Scott, com a sensação de que eram observados, se virou diversas vezes para ver se encontrava alguma luz entre as diversas janelas do grandioso prédio que era o internato. Nunca encontrou nada, nem um vulto sequer.
O suor já os invadia, obrigando-os a deixar suas camisetas de lado. O metro e meio de profundidade já havia sido conseguido quando Roland parou bruscamente de cavar e ficou olhando, hipnotizado, para o chão, onde havia cravado sua pá.
-Algo errado, cara? – Perguntou Scott, se aproximando. Como resposta, apenas conseguiu um trêmulo indicio da voz de seu amigo. Trêmulo indicio da voz de seu amigo. – Você encontrou um baú do tesouro, é? – Nunca aquela risada brincalhona viera em tão mal momento. Roland, lentamente, olhou para Scott e apontou para o chão.
-Mas o quê demônios...?
Havia algo ali, camuflado em meio a terra algo úmida e avermelhada. Parecia ser uma superfície plana de madeira. Trocaram um olhar intrigado e se apressaram em continuar a cavar, com os seus próprios dedos, o suficiente para revelar a totalidade de um baú. Um baú de aparência antiga, mas que resplandecia quase divinamente sob a luz do luar com seu revestimento em prata. Um baú enterrado no pátio interno de um internato. De seu internato.
Category Story / General Furry Art
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Li ontem, e felizmente nao vou receber um tapa seu... <xD''
Está ótimo como sempre, Cervo! ^^ Adoro o jeito como você descreve cada cena, cada ambiente e cada expressão... x) Estou vendo que está improvisando um pouco de diálogos, humm? x) Fico muito feliz por isso! ^^
Está ótimo como sempre, Cervo! ^^ Adoro o jeito como você descreve cada cena, cada ambiente e cada expressão... x) Estou vendo que está improvisando um pouco de diálogos, humm? x) Fico muito feliz por isso! ^^
FA+

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