CAPÍTULO 4
O som de sirenes inundava cada vez mais o ar abafado das não tão movimentadas ruas daquele lado da periferia. Um som realmente estridente berrava ao mundo que deixasse espaço para que aquela viatura que corria bem acima do permitido pudesse passar tranquilamente. Os poucos carros que entravam em seu caminho se limitavam a desviar à direita. Quando não o faziam, eram ameaçados por frenéticas e, de certa forma, ameaçadoras buzinadas por parte do tigre que, com uma afobação pobremente contida, dirigia a toda velocidade em direção à...
- Para onde estamos indo mesmo, senhor Bob? – Perguntou Edward, meio na dúvida de se deveria mesmo abrir a boca. O rosto de concentração de seu parceiro era intimidador. – Você tem alguma pista de onde será... Está sendo o ritual?
Bob não respondeu imediatamente. Antes preferiu continuar a gesticular com o braço para fora da janela para que um conversível saísse de uma vez da frente e lhes deixasse passar. Depois, arrancou um celular do que ele sempre chamara “porta-treco da porta”, e o passou para o cervo, o qual lhe olhou com surpresa e confusão.
- Talvez saiba onde está sendo feito. Mas primeiro, tente ligar pro ... P****, vai ser lento assim lá na casa do c*****, p****!! – Berrou o tigre ao quase chocar lateralmente com um tímido fusca que não o havia percebido. – Tente ligar praquela morsa velha. Preciso confirmar uma coisa com ele. O número deve estar na memória. – Em nenhum momento ele deixou de olhar para a estrada com aqueles olhos felinos bem apertados.
- Para o senhor Marcos? Ok... – Edward se apressou em vasculhar a lista de telefones anotados no celular até achar o que achava pertencer ao seu chefe. Ao selecionar o nome “Morsa” com o sobrenome “de Merda (Chefe)” (o dono daquele celular não devia ser muito feliz com o chefe que tinha), apertou o botão verde e o encaixou à lateral de seu rosto, olhando como Bob desviava por um fio de um garoto que ia em busca de sua bola. Infelizmente a bola não tinha tido a mesma sorte e foi enviada longe pelo para-cho...
“Inspetor Marcos no telefone, no meio do almoço. É bom que seja importante, Rodrigues.” A voz algo rouca e nada amistosa do chefe de todo o distrito pôde-se ouvir do outro lado da linha, entre múrmuros dos que, imaginou Edward, deviam ser seus filhos causando baderna à mesa.
- Aqui quem fala é Edward, senhor Marcos. O senhor Bob deseja falar com o senhor sobre o caso. – Disse Edward, com voz firme. Marcos confirmou e pediu para que lhe passasse o telefone. Bob fez uma manobra bem perigosa e consegui estacionar no acostamento da avenida que agora percorriam. Sem dirigir sequer um olhar como agradecimento, tomou o celular da pata de Edward.
- Marcos, vou ser bem rápido. Estou na pista dos delinqüentes que me roubaram e tenho bons argumentos para supor que se tratam de terroristas. – Edward arregalou os olhos – Calma! Claro que sim, quantas vezes eu errei? Eu e Edward interrogamos um cúmplice deles e talvez eles estejam pondo seu plano em prática agora mesmo. – Uma pausa. Edward podia ouvir a voz de Marcos, algo afobada, em forma de um chiado, abafada pela orelha de Bob. – Por isso mesmo te liguei, droga! Preciso confirmar uma cosia pra ter certeza de onde eles estão. Você se lembra daqueles incêndios na zona industrial? Você me mandou pra lá, investigar, mas não consegui achar anda que comprovasse que tinham sido provocados. – Nova pausa. Bob assentiu com a cabeça um par de vezes com a mirada perdida através do pára-brisas. – Você sabe se teve algum outro incêndio depois daquilo? Naquela mesma região? Uhum... Sei, sei sim. Então está confirmado... – Um vitorioso e ao mesmo tempo maléfico sorriso esboçou-se nos lábios do tigre. – Marcos, envie todas as viaturas possíveis pro pavilhão norte daquela velha fábrica de carros... É, sim, aquela onde achamos o carregamento de maconha há três anos! Não quero saber se tua mulher vai te abandonar, te deixar sem um centavo e se casar com aquele chihuahua afeminado dos filmes! Alguma coisa bem ruim está prestes a acontecer. Eu sei. Preciso desse reforço o mais rápido possível. Estou indo pra lá. NÃO ME DEIXE NA MÃO, MARCOS!! – E desligou. É, tinha conseguido transmitir muito bem sua urgência.
- Como você sabe que eles estão lá? – Perguntou Edward, impressionado. Bob jogou o celular por cima do ombro, fazendo-o pousar sobre o banco traseiro da viatura que voltava a emitir o estridente som da sirene, brilhando sob o céu, pouco a pouco mais e mais nublado, malhando de sombras a autopista. Quando por fim estavam novamente correndo a 140 km/h, o tigre ergueu os ombros.
- Intuição. É algo que você acabará ganhando com o tempo, garoto. Mas na verdade é bem simples. Os outros dois incêndios tinham sido provocados nas construções abandonadas mais espaçosas de sua área. Primeiro um antigo Shopping Center na parte sul, depois uma fábrica de eletrônicos da leste e acabo de confirmar que semana passada queimaram sei-lá-o-quê de materiais de construção da zona norte. Essa fábrica de carros é a próxima vitima. Eles procuram lugares com espaço suficiente para fazer suas travessuras, senão cada dia teríamos um incêndio por acidente. Mesmo assim não podem evitar que tudo se queimasse às vezes. Além do que, quanto mais longe do anterior, melhor. Tsc, tsc, tsc, essas crianças precisam ler mais e deixar aquelas séries idiotas. – Já não falava com Edward, falava consigo mesmo. Era normal em Bob soltar um discurso daqueles. Sua mulher lhe dizia que era coisa da idade, sorrindo. Talvez tivesse razão. Aquela mulher sempre tinha razão. – Mas agora tenho um problema... Preciso inventar uma desculpa caso consigamos prendê-los e eles não terem nada de explosivos ou um turbante e uma barba encrespada. Era a única alternativa que tinha pra chamar a atenção daquele velho...
E Bob continuou falando, sem deixar ainda de olhar para a estrada, mas mesmo assim com toda a naturalidade. Estava excitado, sim senhor. Fazia tempo que a adrenalina não passeava por seu corpo daquele jeito, fazendo-o lembrar-se de como amava seu trabalho. E Edward... Virou seu rosto para dedicar uma olhadela rápida a seu novo companheiro. Sim, já podia considerar, lá no fundo, aquele cervo como seu novo parceiro. Mas não pretendia confessá-lo tão cedo, não mes...
Mas o olhar de Edward por um momento, o momento em que seus olhos felinos colidiram com os seus, lhe intrigou imensamente. Não eram os olhos de um garoto hiperativo e sonhador, entusiasmado e ingênuo. Eram olhos firmes, adultos, que transmitiam uma segurança estranha. Podia jurar que ouvia sair de seus lábios um “sabia que podia confiar em você”. Mas não deu atenção. Ou pelo menos fingiu. Sim, fingiu não dar atenção àquele olhar estranho, àquelas palavras sussurradas. Apenas deu importância em manter a viatura no caminho certo, incomodar os carros convencionais e dirigir-se à toda velocidade em direção ao momento mais estranho de sua vida.
E também, por que não, o momento mais excitante de sua vida.
CONTINUA
O som de sirenes inundava cada vez mais o ar abafado das não tão movimentadas ruas daquele lado da periferia. Um som realmente estridente berrava ao mundo que deixasse espaço para que aquela viatura que corria bem acima do permitido pudesse passar tranquilamente. Os poucos carros que entravam em seu caminho se limitavam a desviar à direita. Quando não o faziam, eram ameaçados por frenéticas e, de certa forma, ameaçadoras buzinadas por parte do tigre que, com uma afobação pobremente contida, dirigia a toda velocidade em direção à...
- Para onde estamos indo mesmo, senhor Bob? – Perguntou Edward, meio na dúvida de se deveria mesmo abrir a boca. O rosto de concentração de seu parceiro era intimidador. – Você tem alguma pista de onde será... Está sendo o ritual?
Bob não respondeu imediatamente. Antes preferiu continuar a gesticular com o braço para fora da janela para que um conversível saísse de uma vez da frente e lhes deixasse passar. Depois, arrancou um celular do que ele sempre chamara “porta-treco da porta”, e o passou para o cervo, o qual lhe olhou com surpresa e confusão.
- Talvez saiba onde está sendo feito. Mas primeiro, tente ligar pro ... P****, vai ser lento assim lá na casa do c*****, p****!! – Berrou o tigre ao quase chocar lateralmente com um tímido fusca que não o havia percebido. – Tente ligar praquela morsa velha. Preciso confirmar uma coisa com ele. O número deve estar na memória. – Em nenhum momento ele deixou de olhar para a estrada com aqueles olhos felinos bem apertados.
- Para o senhor Marcos? Ok... – Edward se apressou em vasculhar a lista de telefones anotados no celular até achar o que achava pertencer ao seu chefe. Ao selecionar o nome “Morsa” com o sobrenome “de Merda (Chefe)” (o dono daquele celular não devia ser muito feliz com o chefe que tinha), apertou o botão verde e o encaixou à lateral de seu rosto, olhando como Bob desviava por um fio de um garoto que ia em busca de sua bola. Infelizmente a bola não tinha tido a mesma sorte e foi enviada longe pelo para-cho...
“Inspetor Marcos no telefone, no meio do almoço. É bom que seja importante, Rodrigues.” A voz algo rouca e nada amistosa do chefe de todo o distrito pôde-se ouvir do outro lado da linha, entre múrmuros dos que, imaginou Edward, deviam ser seus filhos causando baderna à mesa.
- Aqui quem fala é Edward, senhor Marcos. O senhor Bob deseja falar com o senhor sobre o caso. – Disse Edward, com voz firme. Marcos confirmou e pediu para que lhe passasse o telefone. Bob fez uma manobra bem perigosa e consegui estacionar no acostamento da avenida que agora percorriam. Sem dirigir sequer um olhar como agradecimento, tomou o celular da pata de Edward.
- Marcos, vou ser bem rápido. Estou na pista dos delinqüentes que me roubaram e tenho bons argumentos para supor que se tratam de terroristas. – Edward arregalou os olhos – Calma! Claro que sim, quantas vezes eu errei? Eu e Edward interrogamos um cúmplice deles e talvez eles estejam pondo seu plano em prática agora mesmo. – Uma pausa. Edward podia ouvir a voz de Marcos, algo afobada, em forma de um chiado, abafada pela orelha de Bob. – Por isso mesmo te liguei, droga! Preciso confirmar uma cosia pra ter certeza de onde eles estão. Você se lembra daqueles incêndios na zona industrial? Você me mandou pra lá, investigar, mas não consegui achar anda que comprovasse que tinham sido provocados. – Nova pausa. Bob assentiu com a cabeça um par de vezes com a mirada perdida através do pára-brisas. – Você sabe se teve algum outro incêndio depois daquilo? Naquela mesma região? Uhum... Sei, sei sim. Então está confirmado... – Um vitorioso e ao mesmo tempo maléfico sorriso esboçou-se nos lábios do tigre. – Marcos, envie todas as viaturas possíveis pro pavilhão norte daquela velha fábrica de carros... É, sim, aquela onde achamos o carregamento de maconha há três anos! Não quero saber se tua mulher vai te abandonar, te deixar sem um centavo e se casar com aquele chihuahua afeminado dos filmes! Alguma coisa bem ruim está prestes a acontecer. Eu sei. Preciso desse reforço o mais rápido possível. Estou indo pra lá. NÃO ME DEIXE NA MÃO, MARCOS!! – E desligou. É, tinha conseguido transmitir muito bem sua urgência.
- Como você sabe que eles estão lá? – Perguntou Edward, impressionado. Bob jogou o celular por cima do ombro, fazendo-o pousar sobre o banco traseiro da viatura que voltava a emitir o estridente som da sirene, brilhando sob o céu, pouco a pouco mais e mais nublado, malhando de sombras a autopista. Quando por fim estavam novamente correndo a 140 km/h, o tigre ergueu os ombros.
- Intuição. É algo que você acabará ganhando com o tempo, garoto. Mas na verdade é bem simples. Os outros dois incêndios tinham sido provocados nas construções abandonadas mais espaçosas de sua área. Primeiro um antigo Shopping Center na parte sul, depois uma fábrica de eletrônicos da leste e acabo de confirmar que semana passada queimaram sei-lá-o-quê de materiais de construção da zona norte. Essa fábrica de carros é a próxima vitima. Eles procuram lugares com espaço suficiente para fazer suas travessuras, senão cada dia teríamos um incêndio por acidente. Mesmo assim não podem evitar que tudo se queimasse às vezes. Além do que, quanto mais longe do anterior, melhor. Tsc, tsc, tsc, essas crianças precisam ler mais e deixar aquelas séries idiotas. – Já não falava com Edward, falava consigo mesmo. Era normal em Bob soltar um discurso daqueles. Sua mulher lhe dizia que era coisa da idade, sorrindo. Talvez tivesse razão. Aquela mulher sempre tinha razão. – Mas agora tenho um problema... Preciso inventar uma desculpa caso consigamos prendê-los e eles não terem nada de explosivos ou um turbante e uma barba encrespada. Era a única alternativa que tinha pra chamar a atenção daquele velho...
E Bob continuou falando, sem deixar ainda de olhar para a estrada, mas mesmo assim com toda a naturalidade. Estava excitado, sim senhor. Fazia tempo que a adrenalina não passeava por seu corpo daquele jeito, fazendo-o lembrar-se de como amava seu trabalho. E Edward... Virou seu rosto para dedicar uma olhadela rápida a seu novo companheiro. Sim, já podia considerar, lá no fundo, aquele cervo como seu novo parceiro. Mas não pretendia confessá-lo tão cedo, não mes...
Mas o olhar de Edward por um momento, o momento em que seus olhos felinos colidiram com os seus, lhe intrigou imensamente. Não eram os olhos de um garoto hiperativo e sonhador, entusiasmado e ingênuo. Eram olhos firmes, adultos, que transmitiam uma segurança estranha. Podia jurar que ouvia sair de seus lábios um “sabia que podia confiar em você”. Mas não deu atenção. Ou pelo menos fingiu. Sim, fingiu não dar atenção àquele olhar estranho, àquelas palavras sussurradas. Apenas deu importância em manter a viatura no caminho certo, incomodar os carros convencionais e dirigir-se à toda velocidade em direção ao momento mais estranho de sua vida.
E também, por que não, o momento mais excitante de sua vida.
CONTINUA
Category Story / Fantasy
Species Unspecified / Any
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